sexta-feira, 17 de novembro de 2017

Literário: Um blog que pensa


(Espaço dedicado ao Jornalismo Literário e à Literatura)


LINHA DO TEMPO: Onze anos, sete meses e vinte dias de criação.


Leia nesta edição:

Editorial – Jornalismo Literário.

Coluna Contrastes e Confrontos – Urariano Mota, crônica, “O que eu ganho com a literatura, professor?”.

Coluna Do real ao surrealEduardo Oliveira Freire, conto, “Pensamentos confusos e sentimentos conflitantes”.

Coluna ClássicosRachel de Queiroz, crônica,Amor”.

Coluna Porta AbertaÂngelo Monteiro, poema, “A Frederico Holderlin”.

Coluna Porta Aberta – Alexandre Bonafim, poema, “O cavalo azul”.

@@@

Livros que recomendo:

Poestiagem – Poesia e metafísica em Wilbett Oliveira” (Fortuna crítica) – Organizado por Abrahão Costa Andrade, com ensaios de Ester Abreu Vieira de Oliveira, Geyme Lechmer Manes, Joel Cardoso, Joelson Souza, Levinélia Barbosa, Karina de Rezende T. Fleury, Pedro J. Bondaczuk e Rodrigo da Costa Araújo – Contato: opcaoeditora@gmail.com

Balbúrdia Literária”José Paulo Lanyi – Contato: jplanyi@gmail.com

A Passagem dos Cometas” Edir Araújo – Contato: edir-araujo@hotmail.com

Boneca de pano” - Edir Araújo – Contato: edir-araujo@hotmail.com

Águas de presságio”Sarah de Oliveira Passarella – Contato: contato@hortograph.com.br

Um dia como outro qualquer”Fernando Yanmar Narciso.

A sétima caverna”Harry Wiese – Contato: wiese@ibnet.com.br

Rosa Amarela”Francisco Fernandes de Araujo – Contato: contato@elo3digital.com.br

Acariciando esperanças”Francisco Fernandes de Araujo – Contato: contato@elo3digital.com.br

Cronos e Narciso” – Pedro J. Bondaczuk – Contato: WWW.editorabarauna.com.br

Lance Fatal” – Pedro J. Bondaczuk - Contato: WWW.editorabarauna.com.br





Obs.: Se você for amante de Literatura, gostar de escrever, estiver à procura de um espaço para mostrar seus textos e quiser participar deste espaço, encaminhe-nos suas produções (crônicas, poemas, contos, ensaios etc.). O endereço do editor do Literário é: pedrojbk@gmail.com. Twitter: @bondaczuk. As portas sempre estarão abertas para a sua participação. 
Jornalismo Literário


O que é mais impressionante, inverossímil, absurdo e chocante, a realidade ou a ficção? Diria, sem precisar pensar muito, apenas com base nos livros que já li, que a primeira. A vida real nos traz, amiúde, fatos e personagens tão insólitos, tão estranhos, tão esquisitos e insanos que chegamos a duvidar que tenham ocorrido (no primeiro caso), ou existido (no segundo).

A realidade é, pois, vastíssimo campo não apenas para o escritor, mas para o jornalista de talento que goste e saiba fazer literatura. Se souber explorá-la bem, com competência, paixão e método, poderá produzir obras marcantes, que se tornem, quem sabe, “imortais”. Aliás, muitos e muitos intelectuais brilhantes migraram e migram das redações para o estrelato no mundo das letras.


O que é mais impressionante, inverossímil, absurdo e chocante, a realidade ou a ficção? Diria, sem precisar pensar muito, apenas com base nos livros que já li, que a primeira. A vida real nos traz, amiúde, fatos e personagens tão insólitos, tão estranhos, tão esquisitos e insanos que chegamos a duvidar que tenham ocorrido (no primeiro caso), ou existido (no segundo).

A realidade é, pois, vastíssimo campo não apenas para o escritor, mas para o jornalista dera. Entre nós, isso ganhou uma infinidade de rótulos, todos, no entanto, com o mesmo significado. Uns chamam essa vertente de Literatura não-ficcional, de Não-ficção criativa, de Literatura de Realidade, enquanto outros denominam de Jornalismo em profundidade, Jornalismo diversional, Reportagem-ensaio, Jornalismo de Autor ou, simplesmente (como é mais conhecido) de Jornalismo Literário.

Há quem atribua o nascimento desse fenômeno ao norte-americano Truman Capote, com seu “A sangue frio”, sem deixar de dar a devida importância a nomes como Tom Wolfe, Gay Talese, Norman Mailer e Joseph Mitchel. Trata-se, não tenham dúvidas, de uma atribuição errada. O Jornalismo Literário já era praticado na Europa em meados do século XIX. E também no Brasil, no mesmo período. Não é, portanto, nenhuma novidade e muito menos invenção de norte-americanos.

O que é, por exemplo, o livro “Os Sertões”, de Euclides da Cunha se não meticulosa reportagem, muitíssimo bem escrita, encomendada na época da Guerra de Canudos pelo jornal “O Estado de São Paulo” (que na ocasião, se não me falha a memória, ainda se chamava “A Província de São Paulo”)?

O Brasil, aliás, não fica atrás de ninguém nesse tipo de “Literatura-Jornalística”, ou Jornalismo Literário, como queiram. João do Rio, por exemplo, foi outro que se destacou nessa vertente, embora seus textos não sejam (erroneamente) classificados como tal. Não citarei outros nomes para não maçar vocês, pacientes leitores. Mas que eles existem (e são muitos), não tenham dúvidas.

Nos anos 60, a revista “Realidade”, e o “Jornal da Tarde”, de São Paulo, impuseram, em suas redações, reportagens que iam muito além das técnicas jornalísticas convencionais de então (e de agora, diga-se de passagem). Embora sem deixar de ser jornalismo da melhor cepa, as matérias que publicavam eram, igualmente, a mais lídima das literaturas, posto que baseadas na realidade.

Não gosto de citar nomes, pois sempre que faço isso, cometo grandes injustiças, ao omitir quem não poderia e nem deveria ser omitido. Como não estou redigindo nenhum ensaio histórico, porém, apenas fazendo considerações à margem, cito, desta época de projeção do verdadeiro Jornalismo Literário no Brasil, os nomes de dois repórteres exemplares: José de Alencar e Otávio Ribeiro (este último conhecido como “Pena Branca”, por causa de uma mecha de cabelos branquinhos que tinha bem no meio da sua vasta cabeleira negra).

E por que abro essas exceções? Porque tive o privilégio e a honra de trabalhar com ambos, tidos e havidos, com a máxima justiça, como os dois se não melhores, entre os melhores repórteres policiais do Brasil em todos os tempos. Ambos eram “feras” e, com todo o respeito que tenho pelos meus companheiros de profissão, não vejo ninguém, hoje em dia, que nem de longe se lhes compare.

José de Alencar foi meu chefe no “Diário do Povo” de Campinas, em sua histórica passagem por esse quase centenário jornal que, infelizmente, já deixou de circular. Otávio Ribeiro eu conheci quando veio lançar seu livro-reportagem “Barra Pesada”, aqui, em nossa cidade, e me tornei de imediato seu fã incondicional, uma espécie de “macaca de auditório”. Colaborou, mesmo que à distância, com várias das minhas edições.

Para não ser completamente injusto, por omissão, com aquela brilhante equipe da Realidade, notadamente de 1966, destaco o nome de José Hamilton Ribeiro. Faço-o não somente por “bairrismo” (ele também atuou no jornalismo de Campinas, como diretor de redação do “Jornal de Hoje”, que em 1982 se fundiu com o Diário do Povo e foi absorvido por este), mas, sobretudo, pelo magnífico Jornalismo Literário que praticou. Este assunto, como se vê, renderia páginas e mais páginas e não somente esta ínfima e supérflua crônica, que não tem a mínima pretensão de se tornar resenha histórica.

Boa leitura!

O Editor.


Acompanhe o Editor pelo twitter: @bondaczuk

O que eu ganho com a literatura, professor?


* Por Urariano Mota



Esta semana, participei do Projeto Outras Palavras, que a Secretaria de Cultura e Fundarpe realizam em Pernambuco. Esse é um projeto que leva escritores para conversar com alunos da rede pública sobre literatura. Para mim, foi uma experiência fundamental.


O colégio aonde fui, a Escola de Referência em Ensino Médio Maria Vieira Muliterno, no Alto da Bela Vista em Abreu e Lima, é uma vitória de educadores e alunos. Ainda não posso escrever sobre o que vi e senti no Maria Vieira Muliterno. Por enquanto, sou incapaz de falar do ânimo de alma dos estudantes com quem conversei. Mas bem posso retomar uma experiência semelhante, que não teve a alegria desta semana.

Nos tempos em que pensei ser professor, sempre tentei dizer a jovens estudantes que a literatura era fundamental na vida de todos. Mas quase nunca tive sucesso nessas arremetidas rumo a seus espíritos. Minhas palavras pareciam não fecundar. Primeiro porque a literatura ministrada a eles, em outras aulas, destruía todo o gozo de viver. Os mestres, profissionais ou burocratas, ensinavam-lhes a anti, a literatura para antas, com listas de nomes, datas e resumos de obras, nada mais. Em segundo lugar eu não fecundava porque o valor do sentimento, o sentido de uma rosa, o cântico de amor ou o desajuste de pessoas em uma sociedade corrupta nada significava para as tarefas mais práticas que se impunham.
O que eu ganho com a literatura, professor?


E com isso, o jovem, quando de classe média, queria me dizer, que
carro irei comprar com a leitura de Baudelaire? Que roupas, que tênis, que gatas irei conquistar com essa conversa mole de Machado de Assis? Então eu sorria, para não lhes morder. A riqueza do mundo das páginas dos escritores, a gratidão que eu tinha para quem me fizera homem eu sabia. Mas não achava o que dizer nessas horas quando o petardo de uma frase de Joaquim Nabuco ganhava a zombaria de toda a gente. Eu sorria e me punha a gaguejar coisas estapafúrdias do gênero os poetas são os poetas, Cervantes era Cervantes. E me calava, e calava a lembrança dos sofrimentos e humilhações em vida do homem Cervantes que dignificou a espécie.
O que eu ganho com a literatura, professor?

Quando essa pergunta me era feita por jovens da periferia, excluídos, isso me ofendia muito mais que a pergunta do jovem classe média. Aos de antes eu respondia com uma
oposição quase absoluta, porque não me via em suas condições e rostos. Mas aos periféricos, não. Eu passava a ser atingido nos meus domínios, na minha gente, porque eu olhava os seus rostos e via o meu, no tempo em que fui tão perdido e carente quanto qualquer um deles. Então eu não sorria. Aquilo, do meu semelhante, me acendia um fogo, um álcool vigoroso, e eu lhes falava do valor da literatura com exemplos vivos, vivíssimos, da minha própria experiência. Então eu vencia. Então a literatura vencia. Mas já não tinha o nome de literatura. Tinha o nome de outra coisa, algo como histórias reais de miseráveis que têm a cara da gente. Que importa? Que se dane o nome, vencia a literatura.

Vencia a qualidade maior da literatura: libertar nos brutos que somos o nosso melhor humano. É algo muito mais precioso, e eterno enquanto houver humanidade, do que tirar uma nota 1.000 na redação do Enem. Ou, se quiserem, pode ser criado até um
anúncio prático de comercial: com a literatura virem humanos, e ganhem uma nota mil para toda a vida.

Mas por enquanto sobre o Maria Vieira Mulierno ainda não posso falar.


* Escritor, jornalista, colaborador do Observatório da Imprensa, membro da redação de La Insignia, na Espanha. Publicou o romance “Os Corações Futuristas”, cuja paisagem é a ditadura Médici, “Soledad no Recife”, “O filho renegado de Deus”, “Dicionário amoroso de Recife” e “A mais longa juventude”. Tem inédito “O Caso Dom Vital”, uma sátira ao ensino em colégios brasileiros




Pensamentos confusos e sentimentos conflitantes


* Por Eduardo Oliveira Freire


Escrevo. Meu Deus, o computador está fazendo um barulho estranho; toca uma música da Madona que adoro, mas não sei o título, sou assim, não guardo nome de música; vários pensamentos passam por minha cabeça.

O dia está nublado e abafado, estava no ônibus, queria preencher um formulário, mas não conseguia por causa das freadas do ônibus; tenho que caminhar; vou fazer concurso público; está chegando o final do ano, o tempo está passando rápido, lembro-me que quando criança, ele parecia que passava devagar.

Continuo a escrever, estou esperando algo acontecer; são 18:28; o barulho de novo no computador, tomara que não estrague outra vez; de novo está tocando uma música que gosto, mas não sei o nome dela e nem quem canta; quero arriscar, tudo ou nada, não quero mais me guardar, prefiro me machucar, vou tentar, não aguento ficar mais na inércia, tenho que aproveitar o restinho de juventude; em algumas ocasiões.

Sonho que saio da minha janela e me transformo num dragão voador; medo, quero riscar essa palavra do meu dicionário; amanhã tenho que tirar xerox, ir para oficina de conto que estou fazendo, levo duas horas para chegar lá; estou com um conto que não me sai da cabeça, quero fazer uma paródia do livro O Retrato de Dorian Gray.


O meu conto será O Retrato de Dolores Gray, que narra a história de Dolores, uma moça que nasceu com uma bunda escultural; um fotógrafo ficou tão admirado com suas nádegas que pediu à moça que deixasse tirar uma foto; no início, ela não quis, ficou com vergonha, mas a mãe incentivou: "Filha, sua bunda é linda! Não desperdice o que deus lhe deu", Dolores sempre escutou mãe, foi um sucesso só.

Dolores ficou tão admirada com sua bunda, que desejou que ela nunca ficasse velha, o tempo passou e suas nádegas continuam lindas, mas no retrato (que o fotógrafo deu especialmente para ela) a bunda era outra, totalmente muxibenta, Dolores escondeu o retrato e... aí pensarei num desfecho para essa paródia mais tarde, estou sem saco agora.

São 19:00, é Horário de Brasília, acho um saco; quero continuar a escrever; quero ler de novo Sol e Aço de Yukio Mishima; adoro desenhos de mangá, tem um que não consigo esquecer: A Viagem de Chihiro; como serei daqui à vinte anos; morte, nem penso nisso, abafa o caso; está escuro, vou ligar a luz, voltei e desliguei o rádio.

Queria ler todos os textos dos sites literários, mas não posso, se não, a conta de telefone vem alta; a INTERNET é um mar de possibilidades e de aprendizagem, porém, para mim, impossível aproveitá-la totalmente; fico num conflito quase existencial, me perco no emaranhado de links e sites ou economizo, para a conta não vir alta; ainda não me acostumei a ler na tela do computador e não sei se é o meu monitor, mas as letras das páginas digitais são, na maioria das vezes, muito pequenas, tenho até dor de cabeça.

Hoje é tudo muito rápido, meu ritmo é mais lento; parece que sempre estou em defasagem, não estou me subestimando, é meu jeito de ser; imagino imagens em minha cabeça, gostaria de ser pintor para reproduzi-las; ter uma opinião sobre tudo, não consigo; estou esperando, desejo que algo aconteça; às vezes, tudo está tão silencioso, que deitado na minha cama, só escuto as batidas do meu coração, isso me deixa um pouco agoniado, o silêncio é pra poucos.

Chega de escrever, se não, ninguém vai entender e nem eu mesmo; quero escrever o agora, mas não consigo, quando acabo de pensar, ao colocar no papel, já foi; erro muito escrevendo, por isso apago o texto e escrevo de novo, fico um pouco triste de errar tanto, porém descobri que antes da perfeição há os defeitos…


* Formado em Ciências Sociais, especialização em Jornalismo cultural e aspirante a escritor - http://cronicas-ideias.blogspot.com.br/







Amor 


* Por Rachel de Queiroz

Outro dia liguei o rádio e ouvi que faziam um concurso entre os ouvintes procurando uma definição para amor. As respostas eram muito ruins, até dava para se pensar que nem ouvintes nem locutores entendiam nada de amor realmente; o lugar-comum é mesmo o refúgio universal, que livra de pensar e dá, a quem o usa, a impressão de que mergulha a colher na gamela da sabedoria coletiva e comunga das verdades eternas. O que aliás pode ser verdade.
Mas a ideia de definição me ficou na cabeça e resolvi perguntar por minha conta. Tive muitas respostas. A impressão geral que me ficou do inquérito é que de amor entendem mais os velhos do que os moços, ao contrário do que seria de imaginar. E menos os profissionais que os amadores – digo os amadores da arte de viver, propriamente, e os profissionais do ensino da vida. Vamos ver:
Dona Alda, que já fez bodas de ouro, diz que o amor é principalmente paciência. Indaguei: e tolerância? Ela disse que tolerância é apenas paciência com um pouco de antipatia. E diz que amor é também companhia e amizade. E saudade? […] Não. Afinal, o amor não vai embora. Apenas envelhece, como a gente.
A jovem recém-casada me diz que o amor é principalmente materialismo. Todos os sonhos das meninas estão errados. Aquelas coisas que se leem nos livros da Coleção das Moças, aqueles devaneios e idealismos e renúncias e purezas, está tudo errado. Quando a gente casa, é que vê que o amor não passa de materialismo. […]

Um senhor quarentão, bem casado, pai de filhos: “Amor, como se entende em geral, é coisa da juventude. Depois de uma certa idade, amor é mais costume. É verdade que tem a paixão com seus perigos. Mas você falou em amor e não em paixão, não foi?”
- E de paixão, que me diz? - Aí ele se fecha em copas. “Deixo isso para os jovens. Velhote apaixonado é fogo. E eu não passo de um pai de família.”
A mãe da família desse senhor: “Amor? Bem, tem amor de noiva, que é quase só castelos e tolices. Tem o de jovem casada, que é também muita tolice – mas sem castelos. Complicado com ciúme, etc., mas já inclui algum elemento mais sério. E tem o amor do casamento, que é a realidade da vida puxada a dois. Agora, o amor de mãe… Você perguntou também o amor de mãe?”
Respondi energicamente que não: amor de mãe, não. Quero saber só de amor de homem com mulher, amor propriamente dito.
Diz o solteiro, quase solteirão, que se imagina irresistível e incansável: “Amor é perigo. Só é bom com mulher sem compromissos. […] O melhor é amor forte e curto, que embriaga enquanto dura e não tem tempo para se complicar. Aquela história de marinheiro com um amor em cada porto tem o seu brilho, tem o seu brilho”.
O pastor protestante diz que o amor é sublimar a atração entre os dois seres, é atingir a mais alta e pura das emoções. Não confundir amor com sexo! […]
Já o padre católico não elimina o sexo do amor. Explica que, pelo contrário, o sexo, no amor, é tão importante como os seus demais componentes – o altruísmo, a fidelidade, a capacidade de sacrifício, a ausência do egoísmo. E é tão importante que, para santificar o amor sexual – o amorconjugal –, a Igreja o põe sob a guarda de um sacramento, o santo matrimônio. E ante a pergunta: se tudo é assim tão santo, por que os padres não casam? O padre velho não se importa com a impertinência, sorri: “Nós nos demos a um amor mais alto. Casamento, para nós, seria pior que bigamia…”

E por último tem a matrona sossegada que explica: “Amor? Amor é uma coisa que dói dentro do peito. Dói devagarinho, quentinho, confortável. É a mão que vem da cama vizinha, de noite, e segura na sua, adormecida. E você prefere ficar com o braço gelado e dormente a puxar a sua mão e cortar aquele contato. Tão precioso ele é. Amor é ter medo – medo de quase tudo – da morte, da doença, do desencontro, da fadiga, do costume, das novidades. Amor pode ser uma rosa e pode ser um bife, um beijo, uma colher de xarope. Mas o que o amor é, principalmente, são duas pessoas neste mundo”.
(De “Cenas brasileiras”, in Coleção Para gostar de ler. São Paulo, Ática, 1995)

* Tradutora, romancista, escritora, jornalista, cronista prolífica e importante dramaturga.
A Frederico Holderlin

* Por Ângelo Monteiro

Com o amor impossível
De que o Verbo se gera
A Terra nos devolves
A Terra a Terra a Terra.
E ao mesmo tempo nos invades
Dessa ânsia dolorosa
Do Centro de ouro. Do Sol
Onde a palavra arranca os seus próprios acordes.
Entre as fibras do Sol, pastor adolescente
Que jamais envelhece os seus raios sem pó.
Ao elevar a hóstia do Dia
Para as nossas bocas,
Como nos tornas brancos, da brancura
Do amor e da loucura!
Pois os deuses em ti ainda nos dão destino
E a velhice é uma forma de cumprir o Sol.


* Ângelo Monteiro é poeta e ensaísta
O cavalo azul

* Por Alexandre Bonafim

à memória de Dora Ferreira da Silva
Um cavalo corta o corpo 
de meus ancestrais perdidos 
um cavalo corta o peito, 
fere o coração ferido” 
Lara de Lemos 

Et beaucoup n′ont pas la chance 
De le voir passer un jour 
Le cheval bleu” 
Gilbert Becaud


Um tropel de silêncio e eternidade
desdobra o ar em acordes levíssimos,
feitos de orvalho e bruma.
As crinas vão desatando o infinito,
as estrelas, a solidão mais aguda.
Eis o instante do cavalo azul.
Eis a sagração do céu em nós.
De seu dorso nascem os desastres.
Procelas tatuam o seu plexo.
Nos seus flancos levitam violinos de água,
teclas de pólen, sinfonias de esquecimento.
Jamais a morte poderia nos assaltar
com maior doçura, com mais bela música.
Jamais o sofrimento teve olhos tão dóceis,
cílios de mel e vinho.
Nunca o instante teve essa luz raríssima,
desenhada pelas puras formas
de um relâmpago cego, 
diamante vivo a deslumbrar a noite. 
A rutilância dos segundos galga nossa pele,
a terra olorosa do corpo.
Em chamejante espiral de nuvens,
o cavalo azul nos enlaça em seu fulgor,
na ternura de uma violência incontida,
dança de galáxias e sóis delirantes,
vórtice febril, iluminado.
Ao toque do seu pelo de súbitos incêndios,
queimamos nossa alma no eterno,
aderimos nossa pele ao infindável.
Festa múltipla, embriaguez da febre,
somos a celebração dessa sonâmbula magia,
pulsar sagrado desnudando-nos para as tempestades,
para a decantação dos mares selvagens.
Eis o instante da morte aguda.
Eis o êxtase do tempo soberano.
O cavalo azul nos visita
com sua aparição de lanças desnudas,
de lâminas agudas, mil raios
a trespassarem nossas feridas.
Quando suas patas arpejam a terra,
as sementes fecundam os sonhos,
despontam do pó ramos e milagres,
frutos abençoam a encantação do amor:
o cavalo marinho e os oceanos,
o cavalo turquesa e os mares,
o cavalo de âmbar e os corais ardentes.

Reluz na noite um fulgor de adaga desnuda,
fulgente aparição a cortar o sonho dos mortos,
o sono das estrelas marinhas: cavalo azul
a relampejar pelos caminhos o tempo das cicatrizes.
Sua crina flamejante, seu ígneo peito, seduzem o luar,
ampliam pelo infinito a cintilação das marés.
Espectro de labirintos vazios,
ele galga a espuma das praias,
a agonia dos condenados à morte.
Ele dardeja a dança dos barcos,
o bordado das ondas,
a solidão dos marinheiros em febre.
Os náufragos, os miseráveis, os afogados,
clamam pela salvação desse sopro de chuvas,
desse maremoto de coices ardentes.
Serenamente soa pela brisa seu pulsar de sândalo,
o seu galope de prismas, delicado aroma
do vinho a incendiar os crepúsculos.
Ele adeja sobre o desespero, salvando-nos
da carne, do medo, do tempo.
Ele nos resgata do pó humano, soerguendo-nos
à sagração das searas fecundas.
Quando seu resfolegar nos arrebata,
nos resgata de nossos pulsos,
ressuscitamos no clarão dos rubis,
na magnitude da aurora boreal.
Desde o nascimentos estamos consagrados
à essa epifania de silêncio e mel:
o cavalo andaluz e o eclipse lunar,
o cavalo cigano e os cometas partidos,
o cavalo de absinto e o mercúrio dos astros.

Galopo no dorso das marés,
meu corpo costurado nos ciclones,
meu torso cravado em tua pele, em teu pelo lunar.
Galopante aridez, eu só sei pulsar no teu plexo,
na fecundidade dos abismos.
Corpos em sôfrega transpiração,
corpos em uníssono, rios a confluírem
num delta de vertigens, foz de enchentes
desvairadas, de correntezas alucinadas.
Possuído pela lâmina dessa fúria,
transmuto-me na energia a cegar
as lanças, os ocasos, os labirintos.
Sou o ser pleno a exaltar-te,
és o que sou, o que fui e serei.
Consagro-me à graça dessa comunhão,
pela qual sou o universo e o nada.
Nessa terra me deito, navego,
nessa pedra me enterro, respiro,
perco-me nesse instinto, nesse espasmo,
para ser o fogo dos corais,
azul febril de infinita iluminura.
Cavalo marinho, dardejante quartzo,
em tuas crinas de ágata, de prata,
queimo a palavra da última estrela,
rasgo o fulgor do teu transe,
da tua clarividência,
pois a morte se fez para os eleitos,
para os profetas, os que sabem da finitude
pelo íntimo do fruto, pelo cerne da chuva.
Eis o pulsar da fúria e das catástrofes:
o cavalo opalino e as estrelas,
o cavalo candente e a poeira dos astros,
o cavalo de vidro e os veleiros incendiados.

Soou a hora derradeira e primeira.
Eis o momento dos vendavais,
do estertor dos cataclismas.
Eis o que em nós germinou
antes do nascer das sementes:
nossa morte, cavalo azul a cortar o céu,
a lançar nosso destino aos astros,
onde a infância nos abraça novamente;
nossa morte, corcel cravejado de safiras,
noite mais densa que as rochas,
onde o azul é harpa de cristais partidos, 
batel de marinhas esmaecidas.
A sombra extrema desenha nosso rosto
no vazio de outro rosto.
A sombra extrema, fruto túmido,
pleno, explode nosso íntimo,
dissolvendo-nos na fulguração do eterno.
Eis o momento do cavalo azul.
Eis a hora da ressurreição das marés.
Um tropel de sinfonias e plumas
dardeja nossa carne, rasga nosso sêmen.
O cavalo azul aflora dos abismos,
submerge dos desastres, germina das montanhas.
Em sua sede bebemos nosso avesso.
Em sua fome sorvemos nosso mistério.
Eis a travessia impossível,
onde todo homem não caminha,
porque não tem pernas, nem pés.
Eis a travessia amputada, 
pasto de enigmas, partitura dos sonhos,
onde somos cegos em nosso destino cego.
Do fecundo nada, do absoluto silêncio,
nasce essa música cristalina, puríssima:
o cavalo celeste e as enchentes,
o cavalo etrusco e os anéis de saturno,
o cavalo de água e os arquipélagos selvagens. 

* Poeta, contista, cronista, crítico literário, professor e mestre em Literatura. Autor dos livros “Biografia do deserto”, “Sobre a nudez dos sonhos” e “Arqueologia dos acasos”..



quinta-feira, 16 de novembro de 2017

Literário: Um blog que pensa


(Espaço dedicado ao Jornalismo Literário e à Literatura)


LINHA DO TEMPO: Onze anos, sete meses e dezenove dias de criação.


Leia nesta edição:


Editorial – Motor do espírito.

Coluna Ladeira de Memória – Pedro J. Bondaczuk, crônica, “Vida perdida”.

Coluna Contradições e paradoxos – Marcelo Sguassábia, crônica humorística Homenagem à Vó Tinhoca”.

Coluna Do fantástico ao trivial – Gustavo do Carmo, conto, “O homem do contra.

Coluna Porta Aberta – Emanuel Medeiros Vieira, poema, “Caronte”.

Coluna Porta Aberta – Silas Correa Leite, poema, “Marmita”.


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Livros que recomendo:

Poestiagem – Poesia e metafísica em Wilbett Oliveira” (Fortuna crítica) – Organizado por Abrahão Costa Andrade, com ensaios de Ester Abreu Vieira de Oliveira, Geyme Lechmer Manes, Joel Cardoso, Joelson Souza, Levinélia Barbosa, Karina de Rezende T. Fleury, Pedro J. Bondaczuk e Rodrigo da Costa Araújo – Contato: opcaoeditora@gmail.com

Balbúrdia Literária”José Paulo Lanyi – Contato: jplanyi@gmail.com

A Passagem dos Cometas” Edir Araújo – Contato: edir-araujo@hotmail.com

Boneca de pano” - Edir Araújo – Contato: edir-araujo@hotmail.com

Águas de presságio”Sarah de Oliveira Passarella – Contato: contato@hortograph.com.br

Um dia como outro qualquer”Fernando Yanmar Narciso.

A sétima caverna”Harry Wiese – Contato: wiese@ibnet.com.br

Rosa Amarela”Francisco Fernandes de Araujo – Contato: contato@elo3digital.com.br

Acariciando esperanças”Francisco Fernandes de Araujo – Contato: contato@elo3digital.com.br

Cronos e Narciso” – Pedro J. Bondaczuk – Contato: WWW.editorabarauna.com.br

Lance Fatal” – Pedro J. Bondaczuk - Contato: WWW.editorabarauna.com.br




Obs.: Se você for amante de Literatura, gostar de escrever, estiver à procura de um espaço para mostrar seus textos e quiser participar deste espaço, encaminhe-nos suas produções (crônicas, poemas, contos, ensaios etc.). O endereço do editor do Literário é: pedrojbk@gmail.com. Twitter: @bondaczuk. As portas sempre estarão abertas para a sua participação.


Motor do espírito


A curiosidade é a mãe da sabedoria”, diz conhecido dito popular. Trata-se de verdade óbvia, da qual poucos se dão conta. Quem não é curioso, no bom sentido, não se sente motivado a aprender coisa alguma, por mais que necessite desse aprendizado, mesmo que invista nele todos os recursos de que dispõe. Até aprende, mas com inaudito sacrifício, com muito esforço e, não raro, com imenso sofrimento.

Este deveria ser, portanto, princípio básico da educação. A criança precisa, desde tenra idade, ter sua curiosidade despertada, espicaçada e estimulada, em relação a tudo o que a cerca, não importa se a coisas concretas ou a ideias abstratas, se a pessoas ou a objetos, se a acontecimentos ou se a princípios. Não é, infelizmente, o que ocorre.

A curiosidade ilimitada, a ânsia por descobrir novidades a cada instante da nossa vida (úteis ou inúteis, não importa, já que saber não ocupa lugar), é fonte inesgotável de experiências e de sabedoria. Nossa existência é relativamente curta e precisaríamos ter milhares de vidas para aprender, e entender, tudo o que o mundo tem a nos ensinar.

Há quem busque tolher essa volúpia por informações, entendendo que se trata de um defeito. Não posso concordar com quem age assim. Temos que fazer de cada instante um renascimento, sem deixarmos tempo livre para emoções negativas, como a cobiça, a inveja, a ira, a vingança e tantas outras que só tendem a levar sofrimento aos outros.

A vida consiste em uma contínua descoberta, desde o nascimento até a morte. A partir do útero materno, quando nosso sistema nervoso e, por consequência, nosso cérebro estão formados, já temos consciência, embora sem possibilidades de externar esse conhecimento, de que existimos e nos encontramos em um ambiente muito bem protegido e acolhedor. Pelo menos é o que dizem os especialistas.

Aliás, isto é comprovável, mediante o processo da regressão. Trata-se da primeira descoberta de uma sucessão que cada indivíduo terá no correr de sua existência, de acordo com a sua realidade e sua personalidade. E todas são frutos desse poderoso motor do espírito, que é a curiosidade. Ao morrer, descobriremos o quanto foram tolos os dogmas e valores aos quais nos aferramos. Mas então já será tarde…

Por ser curioso, o ser humano conquistou o átomo, embora não tenha feito sempre o melhor uso dessa ciência. Pela mesma razão, descobriu e mapeou os códigos genéticos, responsáveis pelas características de todos os seres. Também movido por esse “motor”, aprendeu a duplicar animais e vegetais.

O casal primitivo desobedeceu o Criador e comeu o fruto da Árvore do Bem e do Mal. Por que? Foi, também, por “curiosidade”, posto que mórbida, para ver o que acontecia, mesmo intuindo qual seria o resultado. Perdeu a inocência original, embora conquistasse o potencial de saber de tudo. Ou quase tudo.

Só um conhecimento, e para o seu próprio bem, lhe foi vedado (e para sempre): O do mistério da essência da vida. Caso o conhecesse, provavelmente conduziria à extinção da espécie. Tentaria imitar o Criador e certamente criaria monstros que o destruiriam.

Algumas verdades, preexistentes, mas que por alguma razão, não conseguimos alcançar em determinado período da nossa trajetória vital, de repente, emergem diante de nós, se desnudam aos nossos olhos, se revelam à nossa consciência.

Muitas são óbvias, mas encaramo-las dessa maneira apenas depois de consumadas. Esta consumação, em geral, ocorre com a aquisição da experiência, que é resultado de muitos anos de empirismo, de sucessivas tentativas e erros. E de uma permanente sede de saber, uma constante, incalculável e persistente curiosidade. Às vezes, isso nos redime, às vezes, nos decepciona, deprime e condena.

Uma descoberta, por exemplo, que é complicada quando a fazemos, por ferir nosso amor próprio, é a das nossas limitações. Mas ela é importante. Se quisermos empreender conquistas, é indispensável sabermos onde estamos, o que somos, o que queremos e o quanto podemos, até para podermos escolher a estratégia e os meios para a nossa evolução.

Não é necessário, todavia, alardear nossas deficiências. Mas é indispensável que as identifiquemos e nos disponhamos a corrigir o que estiver incorreto. O dramaturgo Auguste Strindberg sintetiza essa postura: "Para mim, a alegria de viver está na dura e cruel luta pela vida. O aprender algo é para mim uma alegria". Mas para que esse aprendizado se torne possível, e, sobretudo alegre, é preciso manter sempre ligado esse poderoso “motor” do espírito, que é a curiosidade, por tudo


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