terça-feira, 25 de julho de 2017

Literário: Um blog que pensa


(Espaço dedicado ao Jornalismo Literário e à Literatura)


LINHA DO TEMPO: Onze anos, três meses e vinte e oito dias de existência.


Leia nesta edição:


Editorial – Muitos desaparecimentos e nenhuma explicação no Triângulo das Bermudas.

Coluna Á flor da peleEvelyne Furtado, poema, “Duo com o vento”.

Coluna Observações e reminiscênciasJosé Calvino de Andrade Lima, crônica, “Antigos cinemas o Recife”.

Coluna Do real ao surreal Eduardo Oliveira Freire, conto, “Ele”.

Coluna Porta Aberta – Marco Vasques, poema, “Lágrima de pedra”.

Coluna Porta Aberta – Marcelo Labres, crônica, “O voo, de Vitor Soltau”.


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Livros que recomendo:


Poestiagem – Poesia e metafísica em Wilbett Oliveira” (Fortuna crítica) – Organizado por Abrahão Costa Andrade, com ensaios de Ester Abreu Vieira de Oliveira, Geyme Lechmer Manes, Joel Cardoso, Joelson Souza, Levinélia Barbosa, Karina de Rezende T. Fleury, Pedro J. Bondaczuk e Rodrigo da Costa Araújo – Contato: opcaoeditora@gmail.com

Balbúrdia Literária”José Paulo Lanyi – Contato: jplanyi@gmail.com

A Passagem dos Cometas” Edir Araújo – Contato: edir-araujo@hotmail.com

Boneca de pano” - Edir Araújo – Contato: edir-araujo@hotmail.com

Águas de presságio”Sarah de Oliveira Passarella – Contato: contato@hortograph.com.br

Um dia como outro qualquer”Fernando Yanmar Narciso.

A sétima caverna”Harry Wiese – Contato: wiese@ibnet.com.br

Rosa Amarela”Francisco Fernandes de Araujo – Contato: contato@elo3digital.com.br

Acariciando esperanças”Francisco Fernandes de Araujo – Contato: contato@elo3digital.com.br

Cronos e Narciso” – Pedro J. Bondaczuk – Contato: WWW.editorabarauna.com.br

Lance Fatal” – Pedro J. Bondaczuk - Contato: WWW.editorabarauna.com.br



Obs.: Se você for amante de Literatura, gostar de escrever, estiver à procura de um espaço para mostrar seus textos e quiser participar deste espaço, encaminhe-nos suas produções (crônicas, poemas, contos, ensaios etc.). O endereço do editor do Literário é: pedrojbk@gmail.com. Twitter: @bondaczuk. As portas sempre estarão abertas para a sua participação.



Muitos desaparecimentos e nenhuma explicação no Triângulo das Bermudas


Os casos de desaparecimento de navios e aviões no “Triângulo das Bermudas”, inexplicáveis e sem que restasse qualquer vestígio das naves e aeronaves que sumiram, apenas nos derradeiros 50 anos, ascendem a várias centenas. É impossível de saber quantas foram e até de estimar o número. Sabe-se, todavia, que foram muitas, centenas, quiçá milhares de ocorrências. Esses “desaparecimentos” foram desde minúsculas chalupas, passando por veleiros de porte médio, indo até a gigantescos e modernos navios e robustos aviões (em alguns casos de esquadras inteiras deles). Foram tanto rústicas aeronaves de contrabandistas de rum das Antilhas, que desapareceram quanto esquadrilhas de combate inteiras, dotadas de moderna aparelhagem de controle e com tripulações de grande experiência.

A Guarda Costeira dos Estados Unidos revelou, há algum tempo, que apenas um em cada três desaparecimentos é comunicado às autoridades. A área já foi palco de grandes buscas internacionais, onde cada palmo do traiçoeiro oceano foi vasculhado à procura das infelizes vítimas, sem qualquer sucesso. Durante a Segunda Guerra Mundial, inúmeros aviões desapareceram no “Triângulo do Diabo”. A maioria, por motivo estratégico (é evidente que não se pode, num conflito, revelar nossas baixas ao inimigo) jamais foi sequer informada ao público. Finda a conflagração, os desaparecimentos continuaram numa alarmante sucessão.

Neste momento em que o leitor estiver lendo este relato, por exemplo, é bastante provável que algumas pessoas estejam desaparecendo na região. E que nunca mais se encontrará qualquer vestígio nem dos barcos ou aviões em que elas estiverem, e muito menos delas próprias. Isso aconteceu, por exemplo, em 5 de dezembro de 1945, com uma ultratreinada esquadrilha de 5 TBMs (Torpedo Bomber Médium) da Marinha norte-americana, com 15 experientes aviadores. Um ano antes, havia acontecido algo semelhante com sete bombardeiros dos Estados Unidos. Estranhamente, também no mês de dezembro, quando se dá a maioria dessas ocorrências na área.

Duas horas depois que essas pesadas e eficientes aeronaves levantaram voo, quando estavam a 300 milhas de Kindley Field, os pilotos encontraram estranhos fenômenos atmosféricos. Alguns desses avantajados aviões foram arrastados para cima, como se fossem feitos de papel e depois arremessados de centenas de metros. Dois conseguiram escapar e voltaram às Bermudas para informar a ocorrência. Cinco simplesmente sumiram, sem deixar qualquer vestígio.

Nenhum sinal de explosão foi registrado. Nenhuma parte não-submergível foi vista flutuando na área. Nada que pudesse ao menos dar qualquer pista para sequer se conjeturar sobre o que aconteceu foi detectado. Em dois anos, os britânicos perderam duas aeronaves Tudor IV na área nas mesmas circunstâncias. Tratava-se de um avião que tinha dado mostras sobejas de eficiência durante a guerra.

Eram Lancasters adaptados para funções civis e colocados no serviço do transporte de passageiros. O primeiro, um “Star Tiger”, com 31 pessoas a bordo (entre as quais o marechal-do-ar britânico Sir Arthur Cuningham), desapareceu no “Triângulo do Diabo” em 30 de janeiro de 1948. Cinco dias depois, quando a aeronave já não disporia de qualquer combustível, vinda de uma área sem nenhuma ilha em suas proximidades, em pleno Atlântico Norte, foi captada uma mensagem por um rádio-amador na costa Leste dos Estados Unidos. Uma voz apenas soletrou: “G-A-H-N-P”, que era justamente o prefixo do “Tiger” sumido. Que nunca foi encontrado.

Quase um ano depois, em 19 de janeiro de 1949, era a vez de um “Star Ariel” da British South American Airlines, desaparecer no “Triângulo das Bermudas”. Buscas intensas, envolvendo navios, aviões e lanchas de diversos países, praticamente varreram toda a região. Inutilmente. Não foi possível jamais se saber nem o que, e nem como se deu esse estranho desaparecimento. E muitos, muitos outros casos, inclusive bastante recentes, poderiam ser relatados. Todos com o mesmo resultado. Nenhum vestígio das pessoas e dos veículos.

A descrição dos fenômenos do “Triângulo do Diabo” desafia a imaginação dos que tentam explicar suas causas. Bill Verity, por exemplo, presenciou uma estranha e inexplicável chuva de raios. Ele próprio afirmou depois: “Nunca vi raios assim. Um após outro caíam no mar. Era o inferno desencadeado. Fui rodeado a noite inteira e o dia seguinte por imensas descargas elétricas. Nunca encontrei nada parecido. Sentia o cheiro de ozônio quando atingiam o mar. Não me assusto facilmente, mas naquela noite fiquei apavorado”.

O consultor de parapsicologia de Miami, M. B. Dyckshoorn, tem uma estranha teoria para os desaparecimentos. E, ao contrário do que poderíamos achar, não parte para o terreno místico, mas tenta dar uma explicação lógica e racional, baseada em pseudofenômenos naturais. Diz: “Não há nada de misterioso em metade dos desaparecimentos ocorridos no Triângulo do Diabo. São resultado de causas naturais. Da outra metade, alguns podem ser considerados sobrenaturais, no sentido de que não estamos familiarizados com o tipo de incidente que talvez tenha conduzido aos desaparecimentos, mas visualizo uma razão científica. Vejo aviadores sufocados porque o ar lhes é sugado dos pulmões. Não conseguem respirar. Mesmo com o oxigênio e as cabinas pressurizadas, eles sufocam. É um gigantesco vórtice ou redemoinho, que se origina numa depressão no fundo do oceano causada talvez pelo resfriamento do núcleo terrestre. Quando ele chega à superfície, absorve todo o ar circulante. É capaz de atrair aviões que estejam voando a até três mil metros de altitude. Suga para o seu interior grandes navios, ou qualquer coisa que esteja na superfície, absorvendo-os sem deixar vestígios”.

Os seguidores do falecido profeta Edgar Cayce, entretanto, apelam para o fantasioso. Afirmam que onde está hoje o “Triângulo do Diabo”, existiu, outrora, o continente perdido da Atlântida, com uma evoluída civilização, que havia atingido na época em que foi tragada pelo mar um estágio tecnológico muitos furos acima do atual. Dizem que a principal metrópole dos atlântidas está submersa próxima à atual ilha de Bimini, cerca de 70 quilômetros de Miami. Para esse pessoal, a causa dos desaparecimentos seria poderosa fonte de energia construída por esse povo mitológico e que repousaria no fundo do oceano. Lenda? Verdade? Mistificação? Vá saber!

Mas os fenômenos acima descritos certamente não são fantasias (longe disso). Nem outras ocorrências estranhas, freqüentemente verificadas na região, como bússolas cujas agulhas inexplicavelmente começam a girar loucamente, em aviões e navios que trafegam no “Triângulo do Diabo”. Ou o curto-circuito que tem ocorrido em todo o sistema elétrico em vários iates e até em transatlânticos.

Isso, certamente, não é lenda e nem mistificação. Nem a média de oito mil casos de desaparecimentos comunicados à Guarda Costeira da Flórida, que é aquela que mais trabalho tem no mundo com esse tipo de operação. Muita gente já passou pela área dezenas de milhares de vezes, sem que testemunhasse qualquer espécie de anormalidade. Mas várias pessoas sumiram misteriosamente na primeira ocasião que por ali passaram. E nenhum vestígio do seu desaparecimento jamais foi achado. O que realmente se passa no “Triângulo da Morte”? Cada um tire as suas próprias conclusões.

Boa leitura!


O Editor.

Acompanhe o Editor pelo twitter: @bondaczuk
Duo com o vento


* Por Evelyne Furtado


Pisei nas flores que brotaram do teu canto
Não vi as cores do mundo
Escondi-me em mim
A dor é egoísta, sim.
Nada me importava além do que sentia
Só o lamento do vento
Entrando pela fresta da janela
E me arrepiando os pelos
Dias sombrios vivi.
Hoje não sinto o seu perfume
Que a distância não me permite sentir
Mas vejo do céu, o azul
Recebo o calor do sol
E o vento é bem-vindo
Faço um duo com ele
Para você me ouvir.



* Poetisa, cronista e psicóloga de Natal/RN.
Antigos cinemas do Recife


* Por José Calvino

Em conversação com a minha amiga Dilma Carrasqueira, sobre os antigos cinemas, concordamos que foi justamente o teatro o que mais contribuiu para a sétima arte, o cinema. Um grande exemplo de teatro em Pernambuco foi o Santa Isabel (1895). Por lá, passaram as companhias itinerantes, a exemplo do Cinematógrafo Herver de Paris (aparelho inventado pelos irmãos Lumière), que já em 1908 fazia sua terceira apresentação no Recife. Exibia fitas cinematográfica da Paixão de Cristo e os flagrantes da Exposição Nacional do Rio de Janeiro (Fonte: “Clã do Açúcar”, Rio de Janeiro, de Lemos Filho, 1960). Para citar os cinemas, começarei pelos do centro do Recife:

O Polytheama, na rua Barão de São Borja, inaugurado em 25 de outubro de 1911 e dirigido pelo escritor Eustórgio Vanderley. Em 1932, passou a pertencer à Empresa Severiano Ribeiro.

O Cine Moderno, na Praça Joaquim Nabuco, inaugurado em 15 de maio de 1913. Em 1934, foi arrendado à Empresa Luiz Severiano Ribeiro.

O Cine Ideal, no Pátio do Terço, bairro de São José, inaugurado em 15 de novembro de 1915 e dirigido pelo Sr. Manoel Ramos. Em 1930, passou a pertencer ao Sr. Álvaro Ferreira Leite.

O Cinema Parque, inaugurado em 24 de novembro de 1921 (Antigo Teatro do Parque), na rua do Hospício, nº 81. Em 1929 foi reformado pela Empresa Severiano Ribeiro, a quem passou a pertencer. Atualmente abriga a Banda da Cidade do Recife e continua promovendo sessões de cinema a preços populares, iniciativa aliás elogiada nacionalmente.

O Cine Glória, na rua Direita, bairro de São José (o mais popular e famoso, pois o seu público era em maioria os freqüentadores do Mercado de São José e da Praça D. Vital). Inaugurado em 4 de setembro de 1926, teve seu edifício tombado em 28/02/1983, pelo Patrimônio Histórico Estadual.

O Art Palácio, na rua da Palma, foi inaugurado em 16 de maio de 1940. O edifício, atualmente abandonado, encerrou suas atividades em 1993.

O Trianon, na Avenida Guararapes, vizinho do prédio abandonado do Art Palácio, é lá onde à noite flagelados dormem atualmente, embaixo da marquise. Inaugurado em 1945, encerrou suas atividades em 1995. Lá foi cogitada a construção de um Shopping vertical.

O São Luiz, na rua da Aurora, foi inaugurado em 1952 no térreo do edifício Duarte Coelho. Até 1958 aproximadamente, era obrigatório o uso de paletó entre os seus espectadores. Em meados da década de 60, aos sábados pela manhã, exibia filmes de alto nível (Cinema de Arte). Estava fechado há quase dois anos depois que o Grupo Severiano Ribeiro decidiu que o espaço seria administrado pela Fundação do Patrimônio Histórico e Artístico de Pernambuco. Este ano houve a abertura da IV Janela Internacional de Cinema do Recife (Vide Recinfeliz).

Veneza, na rua do Hospício, foi inaugurado em 1970.

Por fim, lembro também dos cines Ritz e Astor, na Avenida Visconde de Suassuna, inaugurados em meados de 1971.

Com o advento da TV, vídeo-cassete e do DVD os cinemas sofreram prejuízos, principalmente os de bairro, que chegaram a fechar suas portas: Boa Vista e Soledade, no bairro Boa Vista; Casa Amarela (mais conhecido por “Cacau” ou Cinema Velho), Rivoli e os novos Coliseu e Albatroz, em Casa Amarela; Guarani, no Alto José do Pinho (Casa Amarela); Diacuí, no Monteiro (Próximo das subidas do Alto do Mandu e Alto Santa Izabel); Luan, em Casa Forte; Espinheirense, na Encruzilhada; Império e Olímpia, em Água Fria; Beberibe, no bairro do mesmo nome; Vera Cruz (ajudei instalar o letreiro verde em Néon- 1956) e Éden, em Campo Grande; Eldorado e Pathe, no Largo da Paz - Afogados; São José, Ideal e Glória, ambos no bairro São José; Real e Torre, na Madalena; Brasil, na Iputinga; Guararapes, em Areias e Santo Amaro, no bairro de mesmo nome.

Obs.: Fui testemunha ocular da maioria dos cinemas citados. Apenas as datas das inaugurações e proprietários foram trabalhos de pesquisa. Atualmente, sobrevivem salas de projeção de filmes nos Shopping Centers das cidades do Grande Recife.

*Escritor, poeta e teatrólogo.



Ele


* Por Eduardo Oliveira Freire


Quando era menino, lançava-me ao desconhecido de peito aberto. Não sabia o que era medo.

O pessoal lá de casa começou a falar que não podia sair sozinho, porque o monstro me pegaria. De tanto me dizerem, o monstro surgiu em todo lugar, até no meu quarto. Senti bastante medo.

Com o passar dos anos, quando comecei a testemunhar os vários episódios violentos e absurdos do mundo, ele foi se transformando numa criatura frágil.

Até hoje o "monstro" vive comigo. Mora dentro do armário com pavor de tudo que se relaciona lá fora. 


* Formado em Ciências Sociais, especialização em Jornalismo cultural e aspirante a escritor - http://cronicas-ideias.blogspot.com.br/



Lágrima de pedra


* Por Marco Vasques


Caiu-me o olhar para a límpida fonte;
Que logo desviei, colhendo a ver a
Imagem da vergonha em minha fronte.”
(Dante in Purgatório, canto XXX)

o metal na veia orquestra os órgãos
e desenhos no monturo se acumulam
coração pulmão fígado e voz entram
espontâneos na faca que expia a artéria

e bate no peito um esquife dobrando
a esquina acompanhado pela multidão
com lágrimas de pedra e ranger de
madeiras nas pernas de mortos vindouros

um copo de ácido na saliva
não corrói o aço da faca na garganta
e nem impede o corte vertical
da lâmina que divide a língua

e faz surgir do homem um copo
de vinho dividido em leucócitos e
eritrócitos que escorrem nos dias e nas noites

do outro lado da cidade
encontro outros órgãos longe
da orquestração cotidiana
porém próximos dos risos dos revólveres

e na absoluta solidão
grita a filantropia de um coração andarilho
no desejo de construir uma orquestra sinfônica
em que as facas não sangrem o violino
e a cadeira de rodas posta à frente do piano
não emane a mesma e única música
que ecoa na calmaria dos lagos
onde dormem afogados
meninos com suas canções de ninar
jovens guitarras elétricas homens
mulheres anjos demônios mísseis
moedas cédulas prédios carros
placas de advertência e a desconexão
completa dos dedos sujos de pólvora

no aborto dos órgãos só varia
a estupidez humana em aperfeiçoar
os acordes da vida
quando se está condenado a
tocar sempre a mesma nota

(Do livro Elegias Urbanas, Bem-te-vi, RJ, 2005)


*
Poeta e crítico de poesia. Bacharel e licenciado em Filosofia pela Universidade Federal de Santa Catarina. Faz mestrado em Filosofia da Linguagem. Autor de Elegias Urbanas (Poemas, 2005, Bem-te-vi, Rio de Janeiro), Diálogos com a literatura brasileira – volume I (entrevistas, 2004, EdUFSC/Movimento, SC/RS), Diálogos com a literatura brasileira – volume II (entrevistas, 2007, EdUFSC/Movimento, SC/RS) e Harmonias do Inferno (contos, 2005, edição do autor). Tem no preloFlauta sem Boca (poemas) e trabalha no Diálogos com a literatura brasileira - volume III. Nasceu em Estância Velha, 1975, vive em Florianópolis, mas é de Imbituba, onde passou a infância.



O voo, de Vitor Soltau


* Por Marcelo Labes


No primeiro livro a gente faz questão de acertar, mas sempre erra mais do que acerta e, no fim das contas, estão lá nossos erros, acertos, acidentes que deram certo, tentativas frustradas de mais acertos que erros, e por aí vai. Para os que não desistem do primeiro voo, vem o aprendizado de ter continuado a voar. Não me refiro aqui, preciso deixar claro, ao primeiro EP de Vitor Soltau, de nome Gratidão, de 2016, que já é um acerto em si. Mas preciso falar do álbum desse jovem músico, O Voo, que será lançado em breve, cujo áudio já podemos ouvir aqui e aqui, e que demonstra que Vitor amadurece enquanto compõe e voa mais, mais alto.

Conheci o Vitor num sarau muito bonito, organizado aqui em Blumenau. De uma reunião de poetas — alguns de primeiros versos, alguns de muitos livros — eis que lá surge o menino com o violão. Pensei: isso pode sair muito bem como também pode resultar muito mal. A minha surpresa! Porque Vitor Soltau é sonoro dum jeito muito específico, e o que canta são poemas muito bem escritos. De “jovem rapaz com um violão embaixo do braço” (minha primeira impressão), fiquei orgulhoso de ter tido oportunidade de ouvi-lo.
Avisei-o de que escreveria este singelo texto e pedi, claro, ajuda para identificar ritmos e saber com o compositor sobre suas composições. Faixa a faixa, eis o disco:
Menino Passarinho, a canção que abre O voo, não poderia ter sido melhor escolhida para a ocasião. Ali Vitor se apresenta como o compositor sensível que acompanharemos pelas faixas seguintes do álbum. E já na abertura ele nos aponta que as palavras, em suas composições, têm valor de importância, pois que:
Pássaros voando são poemas Que pousaram tão distante Que nos falta alcançar
Poetas caçam pássaros voando Nessa imensidão azul Que temos a explorar
Dos cantos de pássaros na abertura da música, passando pelo dedilhado singelo, sonoro, sincero, voamos alto, voamos junto do artista. Por um instante, o voo é o que existe. Mas se a gravidade há de exercer sua força — e ela exerce, salve Newton! — Cenários de Beleza apresenta-se telúrica, breve, sagaz. O pouso é forçado e turbulento, e chegamos onde “São tantos cenários de beleza / Torturados pelas elites efêmeras”. Exatamente aqui, eu diria. Mas Vitor faz isso de maneira leve, ainda. Numa voz de sussurro e sossego (ou será tensão?), o artista que nos havia convidado ao voo, nos traz de volta à terra e acho que essa é a primeira vitória do álbum.
Vitor Soltau viveu em Córdoba, Argentina, e é do país vizinho que traz o folklore que mistura ao samba para este passeio litorâneo, Canto Estelar, em que nos é apresentada a cosmogonia do compositor: “Busque o bem sempre”, é o recado.
Gratidão, este candombe, traz tanto que emociona. Voamos novamente, e dessa vez para o universo familiar de Vitor. O artista que havia se apresentado nas faixas anteriores, agora apresenta o lugar de onde veio. E poetiza a família, a quem agradece; agradece “à estrela / à alegria / de vê-la”, agradece “às Marias e Joanas / em semanas tão mundanas”. E é assim que Vitor desenvolve suas composições: entre céu e terra, voo e queda, sendo sobretudo sincero, mostrando-se profundamente agradecido.
O fato de ter morado fora, e quem já passou que fosse uma semana fora do Brasil entenderá, explica a ingenuidade bonita de Como Vento, onde o Brasil é cantado com clichês que o descrevem, com os quais o descrevemos e de como lembramos de casa quando não andamos por aqui. Lembrei-me do final de minha primeira viagem, quando cruzei com um rapaz pelas ruas de San Telmo, em Buenos Aires. Ele carregava um surdo e pedi que ritmasse samba. O que senti naquela hora, Vitor descreveu nesta faixa.
Curiosa, Poesia em Ti começa funk, e funk permanece. Aqui o compositor pede ajuda de poetas mais velhos e segue de mãos dadas com Drummond, Manoel de Barros, Pessoa... e nós damos as mãos ao artista que visita sons e palavras com leveza e segurança, na companhia de Marianella Anelli Colucci, que o acompanhará também em A(mar), Aquela do Céu e Estrella. A distância, a propósito, é encurtada pelos versos claros desta bela canção em espanhol: “No me olvidé de la fuente / de sus ojos brillantes”.
Porque O Voo precisa terminar (e são assim essas experiências de lirismo, elas precisam ter fim), termina logo nos lembrando do inevitável. Tempo tem essa capacidade de encerrar o disco, nos fazer pousar (agora um pouso tranquilo, equilibrado, sem turbulência) e lidar com o dolorido da falta dele, como numa cantiga de ninar que não faz dormir, mas convida à insônia.
Ouçam Vitor Soltau sem medo. Permitam-se esse Voo para o qual o artista, já alto, nos convida a voar junto. Se for um dia de vento, o Voo será certamente mais prazeroso, ainda que nos dias nublados e úmidos (aqueles em que tememos embarcar), a voz, os violões, os ritmos e os poemas de Soltau possam nos mostrar que pra além das nuvens existe um céu de brigadeiro. Não que isso seja uma novidade, mas é sempre bom parar para recordar — e o menino-passarinho faz isso muito bem.



* Poeta de Blumenau/SC

segunda-feira, 24 de julho de 2017

Literário: Um blog que pensa


(Espaço dedicado ao Jornalismo Literário e à Literatura)


LINHA DO TEMPO: Onze anos, três meses e vinte e sete dias de existência.


Leia nesta edição:


Editorial – Vasto tapete de plantas em pleno mar.

Coluna Em Verso e Prosa – Núbia Araujo Nonato do Amaral, poema, “Bic”.

Coluna Lira de Sete Cordas – Talis Andrade, poema, “A casa azul”.

Coluna Direto do Arquivo – Danielle Giannini, conto, “A moça famosa”.

Coluna Porta Aberta – Odete Ronchi Baltazar, poema, “Caminho dos ventos”.

Coluna Porta Aberta – Luciane Evans, artigo, “Informação por osmose”.

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Livros que recomendo:

Poestiagem – Poesia e metafísica em Wilbett Oliveira” (Fortuna crítica) – Organizado por Abrahão Costa Andrade, com ensaios de Ester Abreu Vieira de Oliveira, Geyme Lechmer Manes, Joel Cardoso, Joelson Souza, Levinélia Barbosa, Karina de Rezende T. Fleury, Pedro J. Bondaczuk e Rodrigo da Costa Araújo – Contato: opcaoeditora@gmail.com

Balbúrdia Literária”José Paulo Lanyi – Contato: jplanyi@gmail.com

A Passagem dos Cometas” Edir Araújo – Contato: edir-araujo@hotmail.com

Boneca de pano” - Edir Araújo – Contato: edir-araujo@hotmail.com

Águas de presságio”Sarah de Oliveira Passarella – Contato: contato@hortograph.com.br

Um dia como outro qualquer”Fernando Yanmar Narciso.

A sétima caverna”Harry Wiese – Contato: wiese@ibnet.com.br

Rosa Amarela”Francisco Fernandes de Araujo – Contato: contato@elo3digital.com.br

Acariciando esperanças”Francisco Fernandes de Araujo – Contato: contato@elo3digital.com.br

Cronos e Narciso” – Pedro J. Bondaczuk – Contato: WWW.editorabarauna.com.br

Lance Fatal” – Pedro J. Bondaczuk - Contato: WWW.editorabarauna.com.br



Obs.: Se você for amante de Literatura, gostar de escrever, estiver à procura de um espaço para mostrar seus textos e quiser participar deste espaço, encaminhe-nos suas produções (crônicas, poemas, contos, ensaios etc.). O endereço do editor do Literário é: pedrojbk@gmail.com. Twitter: @bondaczuk. As portas sempre estarão abertas para a sua participação.