sexta-feira, 25 de setembro de 2009




Diante do espelho eu vinha

* Urariano Mota

Mas então eu em vez de te pegar pelos ombros, de te acariciar nos ombros, fiz dos meus dedos garras, como se compridas unhas tivessem, e com elas eu te cerquei, como uma ave de rapina, e enquanto os teus olhos cresciam para compreender e assimilar aquele novo perigo, e enquanto assim te distraías, de costas para mim, a ver as minhas garras no reflexo do espelho, então eu pousei os meus dentes no teu pescoço, como se nele eu os cravasse fundo. Beijei o teu pescoço e o mordi de leve, como um prolongamento do beijo, porque macio e latejante de viço eu o sentia. Estremeceste, pude ver, diria que pulsações eu vi, porque eu também estremeci ao contato e reflexo do teu estremecimento. Tive impulso de lamber a pequena mordida que te fiz, mas recuei, não bem horrorizado ao que eu desejava, mas recuei por desconhecer esse caminho do afeto, por não saber, naquela tenra idade, que todo impulso de amor é manifestação legítima. Se eu soubesse o gosto que era beijar e mordiscar e lamber o pescoço da amada, eu não teria apenas beijado. Mas naquela idade o querer era um instinto, um conteúdo amorfo à procura de uma forma, e só hoje, a meditar sobre o acontecido, é que compreendo o quanto a forma possibilita um conteúdo, o quanto a forma, ao contrário da gênese explicativa, não é um ato posterior, ou um ato de apresentação, um estilo, um método, um embrulho, o quanto a forma é, ela mesma, um conteúdo! A expressão é o ser. Mas eu não sabia, nem poderia sequer imaginar saber, e disto apenas hoje sei por força da evocação. E pela invocação também daqueles malditos e encantadores dias.

Então, sob o impulso de lamber, cravei mais fundo os dentes em ti. Então eu senti melhor o teu estremecimento, porque o que eram minhas garras havia se transformado em mãos, quando mais perto e cerrado eu te abraçava. Para melhor fogo e prazer te revolvias, a pretextos de estremecimento, mas era um estremecer que iniciava um movimento de procura de um pássaro para o seu ninho. Um revolver que era um procurar sentir o meu corpo sólido. Como um rabo de gato que antes de ser um carinho é um fazer-se carinho. Porém mais que cauda de gato. A estremecer, a revolver, a ir e vir de costas para mim, tu me chamavas, tu me exigias e imploravas a penetração da estaca, vampira nova a se salvar numa sodomia. Então eu, em resposta muda a esse apelo mudo, com o diálogo e eloqüência dos sentidos, deixei como por acaso as minhas mãos caírem até os teus seios, e passei a correr dedos e palma por eles, a ir e vir. Então me deixaste absolutamente tonto, porque no espelho pude ver que teus olhos choravam.
Estavam úmidos, lágrimas lento desciam, e não choravas de dor, ali mesmo e naquela hora pude ver. Assim percebi porque, enquanto o espelho refletia os teus olhos apequenados e em lágrimas, tuas ancas em minha virilha aproximavas, e tua altura descias, sem te curvares, porque tuas pernas abrias um pouco. A ser dor era a própria dor que pedias. Não sei, não lembro agora, se tive consciência de que ali podias ser minha. Naquele instante, na irracionalidade sem recato e pública da excitação, ali mesmo, que eras minha. Que digo, só agora percebo, ali eu é que era teu, ainda que não te houvesse penetrado. Eu estava sob o teu domínio, porque te mostravas dominada. Mas eu não podia, por mais que nesse impedimento muito penasse, ali mesmo me ferir de cheio enquanto te penetrava. Estávamos no quintal, era um lugar público, esta a aparente razão. Mas eu poderia enlaçar-te, ainda que para isso eu me vestisse outro personagem, o de um vaqueiro que laça a sua rês, não importa, eu poderia enlaçar-te e trazer-te arrastada até meu aprisco. Sim, mas onde o laço, físico, de couro entrançado, àquela altura? Eu estava louco, em riste, e tu, dócil, doce e entregue. Ainda que em local fácil de ser visto. O amor, o sexo, não medem hora, lugar e conveniência. A mais implacável repressão, as mais violentas interdições do céu à terra, com melhor gozo nos coroavam. Eram força de estímulo. Então eu vi que o instante era de pôr o pênis para fora e te penetrar até o ponto em que teus olhos se arregalassem, e entre convulsões explodisses em pranto. Pelo espelho eu te via. Pelo espelho tu me vias. Fodíamo-nos, e assim posso dizer, enquanto nos víamos na tela, no reflexo do espelho ao lado do banheiro. Não, eu o soube, não era preciso desnudar o pênis, porque ele já se encontrava solto, nu, sob a fina superfície que o vestia, como num reflexo de paralaxe. Nu pela ardência e tato da tua vulva, ela também umedecida, em choro, eu a sentia. “É pecado”, dizíamo-nos sem nos dizer, “É pecado”, sofríamos, e por ser Pecado mais ainda nos queríamos. Que fosse pecado, um Pecado de castigo e punição eterna, por todos os fogos e suplícios do inferno, que fosse a caldeira dos infernos pelos séculos, pela eternidade, menos inferno seria e mais suave e de paz no tempo do minuto em que ias e vinhas sobre o trilho do meu pênis. Tu negavas e afirmavas que o querias sob as pétalas da tua flor, porque então pude sentir, porque pelos olhos do espelho pude ver as tuas feições de êxtase, que era o desejo quase realização do bico do beija-flor no centro da corola. E batias nele, e, por ser matéria dura, porém flexível, e por resistir a que te furasse, tu o fazias inclinar, pôr-se lança em declive, como um tobogã, e por ele tu coçavas o teu desejo, friccionavas, subias e descias, criança insensata, que não sabia se o céu era o processo ou a saciedade. Como sabê-lo no calor do sangue e da luta, como sabê-lo no instante do prazer em angústia? O céu é o fim, o céu está no fim, no meio ou no começo? Subias e descias, solta, contida, e a ponto do galope desembestado.

* Jornalista e escritor

5 comentários:

  1. Que coisa, sô! Tô embasbacado com a intensidade de uma narrativa virilmente erótica que remete às primeiras tentativas da adolescência. Ninguém esquece isso! Um literatura de ímpetos sem freios, um rompante avassalador, cilada da qual nem a ninfa mais esperta conseguiria escapar. O bote na hora certa, pq inadiável. Parabéns, Urariano!

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  2. Há quem diga que orgamos são encontros com Deus. Estes daí ainda pareciam estar em área vip.

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  3. "Galope desembestado" é um fecho autoexplicável da urgência do sexo iniciado, ainda que adolescente. A busca da saciedade não admite outro ritmo que não seja a pressa.

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  4. Chega de ingratidão. Muito obrigado, amigos.

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