domingo, 17 de dezembro de 2017

Literário: Um blog que pensa


(Espaço dedicado ao Jornalismo Literário e à Literatura)


LINHA DO TEMPO: Onze anos, oito meses e vinte dias de existência.


Leia nesta edição:
Editorial – Matriz da atual civilização.

Coluna Ladeira da Memória – Pedro J. Bondaczuk, crônica, “Mudança de hábitos”.

Coluna Direto do Arquivo – Rosana Hermann, crônica, “As fascinantes diferenças sexuais entre gregos e romanos”.

Coluna Clássicos – Malba Tahan, conto, “Os trinta e cinco camelos”.

Coluna Porta Aberta – José Ribamar Bessa Freirei, artigo, “O mercado da saúde: a loucura e os açougueiros da alma”.

Coluna Porta Aberta – Francisco Simões, poema, “Tantos muros”.


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Livros que recomendo:

Poestiagem – Poesia e metafísica em Wilbett Oliveira” (Fortuna crítica) – Organizado por Abrahão Costa Andrade, com ensaios de Ester Abreu Vieira de Oliveira, Geyme Lechmer Manes, Joel Cardoso, Joelson Souza, Levinélia Barbosa, Karina de Rezende T. Fleury, Pedro J. Bondaczuk e Rodrigo da Costa Araújo – Contato: opcaoeditora@gmail.com

Balbúrdia Literária”José Paulo Lanyi – Contato: jplanyi@gmail.com

A Passagem dos Cometas” Edir Araújo – Contato: edir-araujo@hotmail.com

Boneca de pano” - Edir Araújo – Contato: edir-araujo@hotmail.com

Águas de presságio”Sarah de Oliveira Passarella – Contato: contato@hortograph.com.br

Um dia como outro qualquer”Fernando Yanmar Narciso.

A sétima caverna”Harry Wiese – Contato: wiese@ibnet.com.br

Rosa Amarela”Francisco Fernandes de Araujo – Contato: contato@elo3digital.com.br

Acariciando esperanças”Francisco Fernandes de Araujo – Contato: contato@elo3digital.com.br

Cronos e Narciso” – Pedro J. Bondaczuk – Contato: WWW.editorabarauna.com.br

Lance Fatal” – Pedro J. Bondaczuk - Contato: WWW.editorabarauna.com.br





Obs.: Se você for amante de Literatura, gostar de escrever, estiver à procura de um espaço para mostrar seus textos e quiser participar deste espaço, encaminhe-nos suas produções (crônicas, poemas, contos, ensaios etc.). O endereço do editor do Literário é: pedrojbk@gmail.com. Twitter: @bondaczuk.As portas sempre estarão abertas para a sua participação. 
Matriz da atual civilização


O século XX, com suas maravilhas e horrores, foi, certamente, o mais dinâmico da História. Ciência e Tecnologia evoluíram, no seu decorrer, como nunca antes havia ocorrido em qualquer outro período. Inúmeras vezes, a humanidade esteve a pique de ser destruída, do Planeta ser esterilizado e de ficar morto e desolado como Vênus ou Marte, por exemplo, que têm dimensões muito próximas às da Terra. Revoluções se sucederam e pipocaram por toda a parte, como a mexicana e a portuguesa, ambas ocorridas em 1910, como a bolchevique, em 1917 e como tantas outras, de menor relevância.

O mundo conheceu duas sangrentas guerras mundiais, que dizimaram milhões de pessoas e deixaram um rastro de desolação e caos, notadamente na Europa. Até a tão temida queda de meteorito ocorreu, felizmente na desolada e semideserta estepe de Tunguska, na Sibéria Central, em 30 de junho de 1908. Houvesse caído em região densamente povoada, ou em cidades como Nova York, Londres, Paris e Roma, estaríamos agora lembrando de uma tragédia de proporções apocalípticas.

O homem desvendou, para sua desgraça, um segredo que seria preferível que não desvendasse: o do átomo, o âmago da matéria. Poderia operar maravilhas com esse conhecimento, mas infelizmente usou-o para matar. E, pela primeira vez na história (e até aqui, felizmente, única), duas cidades foram varridas do mapa, literalmente reduzidas a cinzas (radioativas) num piscar de olhos, mediante bombas nucleares, num genocídio dos mais covardes e inaceitáveis: Hiroshima e Nagasaki.

Em vez de aprender a lição, e se dar conta da terrível “caixa de Pandora” que tinha em mãos, o homem insistiu em se aprofundar em pesquisas, em desenvolver armas muito mais poderosas e letais do que aqueles artefatos primitivos e já tão medonhos. Hoje, as bombas utilizadas para pulverizar as duas cidades japonesas em segundos não passam de ridículos estopins de agentes de morte e destruição infinitamente mais poderosos. Até recentemente, os arsenais das potências contavam com ogivas nucleares suficientes para destruir cerca de uma centena de planetas como a Terra, o que nem o mais insano dos insanos poderia algum dia pensar.

Atualmente, não é possível nem mesmo estimar o potencial destrutivo existente. Não se sabe, por exemplo, se aumentou ou diminuiu, pois para isso é necessário fiar-se na palavra dos políticos, que não é nem um pouco confiável. A suposição mais razoável é que as atuais bombas de hidrogênio são muito mais poderosas do que as de apenas dez anos atrás e que algum erro de cálculo ou mesmo acidente podem fazer voar pelos ares e desintegrar literalmente, tudo e todos, pondo fim não apenas à nossa espécie, mas a praticamente todos os seres vivos. É possível (mas não provável) que apenas escorpiões e baratas sobrevivam a tamanha hecatombe e povoem este belo e frágil planeta azul, em caso dela, por qualquer motivo, ocorrer. E o risco existe.

Mas o século XX não apresentou, apenas, violências, misérias, corrupções, doenças e horrores. Produziu, também, excelentes artistas, cientistas inigualáveis, esportistas fantásticos e pensadores lúcidos e ponderados. Arejou a filosofia, desenvolveu as artes e revolucionou as comunicações. Pode-se dizer que se tornou a matriz da atual civilização. Para muitos, ela é péssima e deveria ser mudada da base ao topo. Só não dizem como fazer isso. Para outros, porém, é miraculosa. Prefiro ficar no meio e reconhecer os avanços, sem esquecer os perigos e armadilhas que foram semeadas em profusão no nosso caminho, mais presentes do que nunca em nossas vidas.

E por que estou tocando no assunto do século XX, quando este já vai ficando cada vez menos visível no retrovisor do tempo? Exatamente por essa distância. Quanto mais distante um fato estiver do momento em que ocorreu, mais isenta, racional e desapaixonada tende a ser sua análise. Acabo de pegar em minha estante um livro que vem a calhar para um estudo frio, meticuloso e desapaixonado desse período tão complexo, tão turbulento e simultaneamente tão fascinante. Pretendo, nos próximos meses, volta e meia, fazer, com a anuência e companhia dos senhores, muitas reflexões suscitadas por essa obra. E qual é esse livro? Trata-se de um ensaio que nem mesmo sei como classificar, se histórico, se político, se econômico, se social ou se tudo isso simultaneamente.

Refiro-me a “O fim do século 20 e o fim da era moderna”, de John Lukacs. O livro foi lançado em 1993 e não recebeu a atenção que merecia. Não foi nenhum best-seller, diga-se de passagem, e pouca gente o comentou. Classifico-o, todavia, como a análise mais lúcida, isenta e abrangente já feita sobre esse período, e que o autor fez quando faltavam ainda sete anos para o século acabar.

E quem é esse John Lukács? É um historiador húngaro, nascido em Budapeste em 31 de janeiro de 1924, de descendência judia, profundamente católico, que em razão da sua origem emigrou para os Estados Unidos no início da Segunda Guerra Mundial, onde se fixou e fez carreira. É um mestre notável, de grande reputação, inclusive na Europa, professor visitante dessa disciplina nas mais renomadas universidades norte-americanas, como a John Hopkins University, a Columbia University e a Princeton University, entre outras.

Já publicou mais de 25 livros e o que tenho em mãos sequer é considerado o melhor deles. Creio, contudo, que se trata de erro de avaliação. Os críticos, provavelmente, não leram esta obra ou se o fizeram, não refletiram a respeito como deveriam. Ao cabo de algum tempo, após refletirmos sobre vários dos tópicos tratados pelo autor, os senhores, certamente, chegarão à mesma conclusão que cheguei. Lukács mostra-se um historiador com alma de filósofo.

Aliás, Dionísio de Halicarnasso, há alguns séculos antes de Cristo, escreveu: “História é Filosofia: ensina por exemplos”. Concordo! O filósofo inglês do século XVII, Henry Saint John, Primeiro Visconde de Bolingbroke fez idêntica afirmação, posto que com outras palavras, mas com o mesmo sentido. Lukács é hoje, sem favor algum, o legítimo sucessor do inglês Arnold Toynbee, tido como um dos maiores, se não o maior historiador do século XX, embora com outra visão dessa disciplina.

Nada melhor para se projetar o futuro do que analisar, com profundidade, atenção e honesta visão crítica, o passado. Só assim teremos condições de evitar os mesmos erros cometidos, com suas naturais consequências, e fazer o que deveria ter sido feito e não o foi, com resultados igualmente catastróficos. Tendemos a errar ora por ação, ora por omissão. Nesse aspecto, no da prevenção tendo como base o que já passou e foi feito ou deixou de sê-lo, não há como deixar de dar razão ao filósofo Soren Kierkegaard, que sentenciou: “Vivemos para a frente, mas só podemos pensar para trás”.


Boa leitura!

O Editor.


Acompanhe o Editor pelo twitter: @bondaczuk
Mudança de hábitos

* Por Pedro J. Bondaczuk

As novas “engenhocas” eletrônicas, cada vez mais surpreendentes e sofisticadas, à nossa disposição no mercado, estão mudando nossos hábitos domésticos (entendo que para muito melhor) e imprimindo mais qualidade de vida aos (ainda) privilegiados usuários. Aos poucos, eles vão se popularizando, tendo preços acessíveis e deixando de ser novidades.

Por exemplo, há algum tempo, eu não tinha a mais remota ideia da existência daquele aparelhinho desenvolvido pela Apple, conhecido como Ipod, que muitos dos meus colegas alegavam ter. Ele originou outros similares, mais avançados, como o mp3. Há uns seis anos, ganhei de presente um modelo ainda mais sofisticado, o mp4. Hoje, esse aparelhinho, do tamanho de um telefone celular, super prático, pequeno e leve, tornou-se obsoleto. Mas na época foi indispensável não somente para meu entretenimento, mas para meu relax. Como sou lerdo em aderir às novidades (até por não contar com grandes recursos financeiros), uso, e bastante, essa engenhoca, há muito ultrapassada.

Como o equipamento é movido a bateria, recarregável no computador, pode permanecer ligado a noite inteira, que não consome energia elétrica a mais. E é o que faço. Há já bom tempo, não durmo sem que ele esteja ligado, bem perto do meu ouvido, na cabeceira da cama, reproduzindo as músicas da minha preferência. Claro que esta só pode ser suave, a dos clássicos. Ninguém consegue dormir, por exemplo, ao som do “rock pauleira”. Concilio o sono ao som de Chopin e desperto ora ouvindo Vivaldi, ora Schubert, ora Tchaikowski ou Beethoven e vai por aí afora. Antes, eu acordava, vez ou outra, mal humorado. Desde que passei a adotar essa “terapia” musical, contudo, isso nunca mais aconteceu. Nas horas em que o subconsciente permanecia “desligado”, ou seja, nas oito de sono, delicia-se agora com os sons mágicos dos gênios da música clássica de todos os tempos.

Mas não foi somente este novo hábito que adquiri em função das já não tão novidades eletrônicas, que incorporei ao meu cotidiano. Tempos atrás, precisava reservar, periodicamente, tempo, em minha apertadíssima agenda diária, para ir a livrarias e, principalmente, bibliotecas públicas, à procura de livros que estivesse precisando, em decorrência de algo diferente que estivesse escrevendo. Nem sempre encontrava o que procurava, principalmente quando se tratava de escritores clássicos. Perdia tempo e dinheiro e voltava frustrado para casa.

Agora, sem arredar pé do meu gabinete de trabalho, “visito” as mais completas bibliotecas do mundo, acessando, via internet, os seus respectivos sites. Invariavelmente (salvo raríssimas exceções) encontro o que procuro sem me esfalfar e nem perder tempo. Faço as consultas e, caso o tema tratado seja complexo, imprimo uma cópia dos trechos que preciso e mantenho esses livros eletrônicos no mesmo lugar que estavam, sem necessidade de abarrotar minha cada vez mais caótica e superlotada biblioteca com novos volumes (haja espaço para tanto papel!). Se quiser consultar esses livros novamente, basta clicar outra vez nos links indicados que a obra surge, inteirinha, diante dos meus olhos, na tela do meu computador.

Por exemplo, há tempos queria reler o romance “Os Maias”, de Eça de Queiroz, que havia lido em 1961, na Biblioteca Pública de São Caetano do Sul, cidade em que então residia. Sem tempo para ir à biblioteca de Campinas, ia, invariavelmente, adiando essa leitura, embora precisasse muito dela, pois queria traçar um paralelo entre um personagem dessa história do romancista português com um dos meus, cujo processo de criação estava em andamento.

Por sugestão de um amigo, que me forneceu o endereço eletrônico da Biblioteca Nacional de Portugal, acessei esse espaço. Achei “Os Maias” com facilidade. Como já me habituei a ler na telinha do computador, li o romance em questão vorazmente, copiei os trechos que precisava e ficou tudo resolvido em três tempos, sem perda de tempo com deslocamentos e sem que precisasse sequer tirar o traseiro da poltrona do meu gabinete de trabalho.

Meu filho, que é fanático por essas engenhocas, disse que muitas novidades “miraculosas” estarão em breve no mercado. Aguardo-as com ansiedade. Estou cada vez mais fascinado por esses aparelhinhos, embora não seja lá tão amigo de um deles, do celular. Tenho um, mas evito de fornecer o número até para os amigos mais chegados, para não me tornar “escravo” desse equipamento. Muita gente se tornou. Utiliza-o, até, em locais que o bom-senso e a educação recomendam que não se deva utilizar, como igrejas, teatros, hospitais e até velórios.

Fico imaginando o que se passou na cabeça dos que inventaram essas maravilhas. Aliás, desconheço quem foram os autores desses inventos. Hoje praticamente não existem mais os “Professores Pardais” solitários. Os trabalhos de desenvolvimento de novidades tecnológicas são feitos, em geral, por equipes, em modernos laboratórios. Claro que há os que têm aquele “clic” inicial, aquela centelha, que possibilita que, o que até então era tido como impossível, se torne, em três tempos, concreto. Mas raramente ficamos conhecendo quem são esses gênios.

Isso me suscita as seguintes reflexões: Como a fábula de La Fontaine, da Cigarra e da Formiga, assim são os homens. Enquanto uns trabalham, construindo templos, cidades, tumbas e monumentos (ou aparelhinhos eletrônicos, que seja), outros "cantam", gozando as delícias do ócio e do fruto do trabalho alheio. Enquanto uns criam, outros aproveitam e esbanjam. Qual o valor das obras, além do óbvio, utilitário, de uso imediato?

São fontes de perpetuidade da memória, ou não passam de frustradas tentativas para evitar o esquecimento após a morte? Creio que as duas coisas. Os pioneiros da civilização, os que fizeram descobertas marcantes, práticas, que facilitaram ou até mesmo garantiram a sobrevivência humana, por estranha ironia, são absolutamente anônimos.

Quem descobriu a roda? Ou a maneira de produzir o fogo? Quem foi o inventor do primeiro alfabeto? Ou da escala musical? Ou dos números? Ou dos princípios básicos da matemática? Estes são alguns dos fundamentos da civilização e foram criados por alguém. Mas por quem? O mesmo se pode indagar a respeito das maravilhas eletrônicas, aparentemente supérfluas, mas que crescentemente ganham importância em nossa vida, por melhorar, sobretudo, sua qualidade. Mesmo anônimos, são merecedores do meu respeito e reverência.

* Jornalista, radialista e escritor. Trabalhou na Rádio Educadora de Campinas (atual Bandeirantes Campinas), em 1981 e 1982. Foi editor do Diário do Povo e do Correio Popular onde, entre outras funções, foi crítico de arte. Em equipe, ganhou o Prêmio Esso de 1997, no Correio Popular. Autor dos livros “Por uma nova utopia” (ensaios políticos) e “Quadros de Natal” (contos), além de “Lance Fatal” (contos), “Cronos & Narciso” (crônicas), “Antologia” – maio de 1991 a maio de 1996. Publicações da Academia Campinense de Letras nº 49 (edição comemorativa do 40º aniversário), página 74 e “Antologia” – maio de 1996 a maio de 2001. Publicações da Academia Campinense de Letras nº 53, página 54. Blog “O Escrevinhador” – http://pedrobondaczuk.blogspot.com. Twitter:@bondaczuk



As fascinantes diferenças sexuais entre gregos e romanos


* Por Rosana Hermann


Os romanos tinham um jeito peculiar de fazer promessas. Quando um homem queria pronunciar um juramento, colocava sua mão sob as coxas do outro e prometia ser leal e fiel. Também entre os judeus há relatos bíblicos de juramentos selados com a colocação da mão masculina sobre o membro de outro homem.

Dito assim, pode parecer estranho, mas não é. Numa época pré-cristã em que o membro masculino era tido, com todo mérito, como algo divino, capaz de gerar novas vidas, jurar com a mão sobre o testículo de outrem era como jurar por Deus. Na verdade, vem daí a palavra testemunhar, isto é, colocar a mão sobre os testículos.

Os gregos não juravam assim, mas tinham uma relação muito natural com o corpo humano, especialmente, o masculino, presente na palavra ginásio.

O ginásio esportivo de Atenas, na Grécia antiga, chamado gymnasium, deriva da palavra gmnos, que significa nu. Era assim que os gregos faziam esportes, totalmente pelados.

Nos ginásios gregos aconteciam também as relações entre homens mais velhos e rapazes mais jovens, que deram origem a um crime nos nossos dias a pederastia. Para os grego, era um processo de aprendizado, uma forma de passar virtudes masculinas como coragem, força, justiça e honestidade. O amante mais velho era chamado erastes, de onde vem pederasta, que passava por relações anais seus ensinamentos para o aluno mais jovem.

Para os romanos, essa história de passar virtudes por penetração anal estava fora de cogitação. Um romano não admitia ser penetrado e ponto final. Esse tipo de experiência sexual era considerado muliebria pati, ou seja, coisa de mulher. De onde já vemos que mulher vem daí, muliebria.

Os romanos mais velhos viam os garotos mais jovens como viri, homens, o mesmo viri que hoje encontramos em virilidade.

Mas há coisas ainda mais incríveis no aprendizado das diferenças de postura sexual entre homens gregos e romanos. Enquanto os jovens gregos podiam ser penetrados por seus mestres, os jovens romanos buscavam a virilidade. Para lembrar disso, usavam no pescoço, um pequeno amuleto, como uma cápsula, contendo uma réplica de um pênis ereto. O estojo que continha o pênis era chamado bulla. E a réplica do pênis era chamada fascinum. Exatamente, a origem do sinônimo de atração irresistível, uma explicação que por si só já mostra como na civilização greco-romana, o sexo era de fato, fascinante.

Só falta agora dizer que já não se faz mais sexo como antigamente....

*Rosana Hermann é Mestre em Física Nuclear pela USP de formação, escriba de profissão, humorista por vocação, blogueira por opção e, mediante pagamento, apresentadora de televisão.



Os trinta e cinco camelos

* Por Malba Tahan

Poucas horas havia que viajávamos sem interrupção, quando nos ocorreu uma aventura digna de registro, na qual meu companheiro Beremiz, com grande talento, pôs em prática as suas habilidades de exímio algebrista.
Encontramos, perto de um antigo caravançará meio abandonado, três homens que discutiam acaloradamente ao pé de um lote de camelos. Por entre pragas e impropérios, gritavam possessos, furiosos:
Não pode ser!
Isto é um roubo!
Não aceito!

O inteligente Beremiz procurou informar-se do que se tratava.
Somos irmãos — esclareceu o mais velho — e recebemos como herança esses 35 camelos. Segundo a vontade expressa de meu pai, devo eu receber a metade, o meu irmão Hamed Namir uma terça parte, e ao Harim, o mais moço, deve tocar apenas a nona parte. Não sabemos, porém, como dividir dessa forma 35 camelos. A cada partilha proposta, segue-se a recusa dos outros dois, pois a metade de 35 é 17 e meio! Como fazer a partilha, se a terça parte e a nona parte de 35 também não são exatas?
É muito simples — atalhou o “homem que calculava”. — Encarregar-me-ei de fazer com justiça essa divisão, se permitirem que eu junte aos 35 camelos da herança este belo animal, que em boa hora aqui nos trouxe.
Neste ponto, procurei intervir na questão:
Não posso consentir em semelhante loucura! Como poderíamos concluir a viagem, se ficássemos sem o nosso camelo?
Não te preocupes com o resultado, ó “bagdali”! — replicou-me, em voz baixa, Beremiz. — Sei muito bem o que estou fazendo. Cede-me o teu camelo e verás, no fim, a que conclusão quero chegar.

Tal foi o tom de segurança com que ele falou, que não tive dúvida em entregar-lhe o meu belo jamal, que imediatamente foi reunido aos 35 ali presentes, para serem repartidos pelos três herdeiros.
Vou, meus amigos — disse ele, dirigindo-se aos três irmãos — fazer a divisão justa e exata dos camelos, que são agora, como veem, em número de 36.

E voltando-se para o mais velho dos irmãos, assim falou:
Deves receber, meu amigo, a metade de 35, isto é, 17 e meio. Receberás a metade de 36, ou seja, 18. Nada tens a reclamar, pois é claro que saíste lucrando com esta divisão.

Dirigindo-se ao segundo herdeiro, continuou:
E tu, Hamed Namir, devias receber um terço de 35, isto é, 11 e pouco. Vais receber um terço de 36, isto é, 12. Não poderás protestar, pois tu também saíste com visível lucro na transação.

E disse, por fim, ao mais moço:
E tu, jovem Harim Namir, segundo a vontade de teu pai, devias receber uma nona parte de 35, isto é, 3 e pouco. Vais receber um terço de 36, isto é, 4. O teu lucro foi igualmente notável. Só tens a agradecer-me pelo resultado.

Numa voz pausada e clara, concluiu:
Pela vantajosa divisão feita entre os irmãos Namir — partilha em que todos os três saíram lucrando — couberam 18 camelos ao primeiro, 12 ao segundo e 4 ao terceiro, o que dá um total de 34 camelos. Dos 36 camelos sobraram, portanto, dois. Um pertence, como sabem, ao “bagdali” meu amigo e companheiro; outro, por direito, a mim, por ter resolvido a contento de todos o complicado problema da herança.
Sois inteligente, ó estrangeiro! — confessou, com admiração e respeito, o mais velho dos três irmãos. — Aceitamos a vossa partilha, na certeza de que foi feita com justiça e eqüidade.

E o astucioso Beremiz — o “homem que calculava” — tomou logo posse de um dos mais belos camelos do grupo, e disse-me, entregando-me pela rédea o animal que me pertencia:
Poderás agora, meu amigo, continuar a viagem no teu camelo manso e seguro. Tenho outro, especialmente para mim.

E continuamos a nossa jornada para Bagdá.


(Malba Tahan, Seleções - Os melhores contos – Conquista, Rio, 1963)


* Pseudônimo de Júlio César de Mello e Sousa, professor, educador, pedagogo, conferencista, matemático e escritor.




O mercado da saúde: a loucura e os açougueiros da alma


* Por José Ribamar Bessa Freire


Não há esperança. Só há luta permanente. É essa a nossa esperança”. (David Cooper – A Linguagem da Loucura – 1978, p.13).

Na tenebrosa noite em que o país mergulhou, nem a loucura está a salvo da ofensiva obscurantista que invade todos os campos da vida social. Agora, o mercado da saúde no Brasil ressuscita os açougueiros da alma. Uma simples portaria do Ministério da Saúde, segundo revela a Folha de SP, quer fazer um grande negócio internando pacientes com transtorno mental, o que contraria a lei da reforma psiquiátrica de 2001 e a política de Estado que começou a ser implantada nos últimos trinta anos com o endosso da Organização Mundial da Saúde (OMS).

O retrocesso é tão grande que não será surpresa se o Congresso Nacional revalidar o direito feudal da pernada concedendo aos empresários o jus primae noctis com a noiva de seus trabalhadores,ou se o ministro da saúde, Ricardo Barros (PP vixe vixe), condecorar o fascista Egas Moniz, aquele neurologista português que inventou a lobotomia – uma técnica cirúrgica criada em 1935 para transformar em “vegetal” quem apresentar sintomas de patologia psiquiátrica, seja lá o que isso signifique. E isso não é piada.

Nesse andar da carruagem, o ministro é capaz de importar dos Estados Unidos o lobotomóvel - unidade móvel que nos anos 1940 percorria aquele país, mutilando as pessoas classificadas como loucos, homossexuais, esquizofrênicos ou quem sofria de ansiedade, insônia, depressão e até crianças acusadas de mau comportamento. Vários filmes exploraram ficcionalmente o tema, entre os quais “Um Estranho no Ninho” com Jack Nicholson e “Stars in My Pocket Like Grains of Sand” no qual o personagem é lobotomizado para aceitar docilmente sua condição de escravo.

Envelhecendo o cérebro

David Cooper, teórico do movimento da anti-psiquiatria que questiona o conceito de alienação mental, conta que num hospital da Inglaterra onde ele trabalhou, um psiquiatra famoso sonhava com uma droga capaz de envelhecer o cérebro, sob a justificativa de que pessoas com o cérebro envelhecido deixavam de encher o saco dos outros. “Os seus desejos foram rapidamente realizados a partir de 1955 com as fenotiazinas (largactil, etc) e depois, mais tarde, com o haloperidol” – escreve ele.

No mundo todo houve forte reação contra o tratamento dos enfermos em instituições psiquiátricas, que eram lugares de tortura e de repressão e não de cura. Na Itália, a luta antimanicomial encabeçada pelo psiquiatra Franco Basaglia revelou que a internação em manicômios e o isolamento pioravam a condição dos pacientes. Com o aval da OMS, ele propôs a reforma no sistema de saúde mental e a criação de centros comunitários e centros de convivências no lugar dos hospícios.

No Brasil, trabalhadores em saúde mental e familiares de pacientes se inspiraram na Itália para reivindicar a abolição dos manicômios e a reforma no modelo de tratamento. O encontro nacional em Bauru (SP) realizado em 18 de maio de 1987 – declarado Dia de Luta Antimanicomial - condenou esse tratamento carcerário de quem sofre transtorno psíquico e aprovou a proposta de que o Estado não pode construir e nem contratar serviços de hospitais psiquiátricos, devendo substituir as internações por atendimentos comunitários, com a participação da família.

Duas leis federais regulamentaram o funcionamento da rede de atenção à saúde mental. Lobotomia e choque elétrico, nunca mais! Nada de envelhecer o cérebro e de internações arbitrárias. Enquanto desativava manicômios, o Ministério da Saúde incentivava o atendimento nos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) criados em 1992, que passaram a oferecer tratamentos intensivos, semi-intensivos e não-intensivos de acordo com cada caso, se responsabilizando, quando necessário, pelo encaminhamento do paciente para leitos de saúde mental na rede hospitalar.

As internações compulsórias ficaram proibidas a partir de 2001, quando a Lei Paulo Delgado foi promulgada, garantindo aos pacientes tratamentos menos invasivos e protegendo-os dos abusos e maus-tratos.  Cerca de 75% dos recursos antes desperdiçados em manicômios, foram redirecionados para quase 3.000 serviços extra-hospitalares, “que ajudam homens e mulheres a encontrar saúde mental e felicidade lá onde ela pode estar, no cotidiano da vida em comunidade”.  

Luta antimanicomial

Agora, dezesseis anos depois da reforma, o Ministério da Saúde prepara portaria (Folha SP 13/12) que propõe não apenas interromper o fechamento de leitos em hospitais psiquiátricos, mas incentiva os internamentos ao aumentar o valor pago por diária nesse tipo de serviço que sobe de R$ 30 para R$ 70 reais. Até então, informa a matéria assinada por Natália Cancian, o número de leitos vinha diminuindo, caindo de 53 mil para 18 mil entre 2002 e 2015.

- “É a maior ameaça à política de saúde mental desde 1990” – declarou o psiquiatra Leon Garcia do Instituto de Psiquiatria da USP. Concordam com ele o neurologista Domingos Alves e os psiquiatras Pedro Delgado e Roberto Kinoshita, ex-coordenadores de Saúde Mental nos Governos Collor, FHC, Lula e Dilma. Os três assinaram o artigo “Retrocesso na saúde mental?” (FSP 14/12) no qual afirmam que “o ministro da Saúde não pode desfazer numa canetada uma política de estado amparada pela legislação federal, pelo controle social do SUS e mundialmente reconhecida por seus resultados”.

- Foi com espanto que soubemos que o atual ministro pretende mudar por meio de uma portaria a política de saúde mental que atravessou todas as gestões do Ministério da Saúde desde 1990, após 11 anos de debates no Congresso – escrevem os três ex-coordenadores, que atuaram em diversos governos com o predomínio de diferentes partidos.

O engenheiro Ricardo Barros, ministro da Saúde, para quem “os pacientes do SUS inventam doenças”, terá forças para ressuscitar o lobotomóvel? Se ficarem inventando doenças, lobotomia neles, de preferência a variante concebida pelo cirurgião americano Walter Freeman: com um martelo, ele introduzia diretamente no crâneo do paciente um picador de gelo, rodando-o depois para destruir o mal pela raiz. Não curava, mas pelo menos o doidinho, neutralizado, não enchia mais o saco de ninguém. 

No Amazonas, a luta antimanicomial, cujas conquistas estão ameaçadas, foi encabeçada pelos saudosos Rogélio Casado e Silvério Tundis, já falecidos, e por Manuel Dias Galvão, que devem ser aqui lembrados para combatermos o fantasma do Walter Freeman e a política desastrosa do atual ministro da Saúde. É preciso continuar a luta. Não podemos permitir que para engordar o mercado da saúde se aumente o sofrimento e a solidão dos pacientes com transtornos mentais.  Como sinalizou David Cooper “É essa a nossa esperança. É essa uma primeira frase, na linguagem da loucura.”.


* Jornalista e historiador.
 
Tantos muros

* Por Francisco Simões

Quando fez dez anos que derrubaram
O muro que dividia o mundo,
Um mundo antes repartido
Por interesses desiguais,
Tantos e tantos comemoraram
Pois o “muro da vergonha”
Agora não existiria mais.

E então não existe mais vergonha?
Enfim aprenderam a repartir as flores?
O sorriso já não morre nas crianças?
O sangue corre apenas pelas veias?
Já extraíram da política a peçonha?
Nunca mais replantaram velhas dores?
A certeza já caminha com a esperança?
O mar não é mais de lágrimas para as baleias?
Nem a noite, hoje, espalha mais o medo?
Os oceanos não se encontram mais doentes?
A paz agora cresce junto com o homem?
O perdão já entendeu que é sempre cedo?
O mundo já se uniu num continente?
Só o passado conta histórias de fome?
As manhãs se repetem iluminadas? Para todos?
O espinho já não inveja o beija-flor?
A derradeira vítima já foi sepultada?
O carinho já desfez toda tortura? Para sempre?
O preconceito já aprendeu o que é o amor?
Os soldados hoje só usam enxadas? Todos?
Já baixou a neblina das ditaduras? Todas?
E então?
E tantos comemoraram
A queda de um muro a mais,
Mas tantos nem se lembraram
Que dividindo este mundo
Ainda há tantos muros iguais.

* Jornalista, poeta e escritor.