segunda-feira, 24 de julho de 2017

Literário: Um blog que pensa


(Espaço dedicado ao Jornalismo Literário e à Literatura)


LINHA DO TEMPO: Onze anos, três meses e vinte e sete dias de existência.


Leia nesta edição:


Editorial – Vasto tapete de plantas em pleno mar.

Coluna Em Verso e Prosa – Núbia Araujo Nonato do Amaral, poema, “Bic”.

Coluna Lira de Sete Cordas – Talis Andrade, poema, “A casa azul”.

Coluna Direto do Arquivo – Danielle Giannini, conto, “A moça famosa”.

Coluna Porta Aberta – Odete Ronchi Baltazar, poema, “Caminho dos ventos”.

Coluna Porta Aberta – Luciane Evans, artigo, “Informação por osmose”.

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Livros que recomendo:

Poestiagem – Poesia e metafísica em Wilbett Oliveira” (Fortuna crítica) – Organizado por Abrahão Costa Andrade, com ensaios de Ester Abreu Vieira de Oliveira, Geyme Lechmer Manes, Joel Cardoso, Joelson Souza, Levinélia Barbosa, Karina de Rezende T. Fleury, Pedro J. Bondaczuk e Rodrigo da Costa Araújo – Contato: opcaoeditora@gmail.com

Balbúrdia Literária”José Paulo Lanyi – Contato: jplanyi@gmail.com

A Passagem dos Cometas” Edir Araújo – Contato: edir-araujo@hotmail.com

Boneca de pano” - Edir Araújo – Contato: edir-araujo@hotmail.com

Águas de presságio”Sarah de Oliveira Passarella – Contato: contato@hortograph.com.br

Um dia como outro qualquer”Fernando Yanmar Narciso.

A sétima caverna”Harry Wiese – Contato: wiese@ibnet.com.br

Rosa Amarela”Francisco Fernandes de Araujo – Contato: contato@elo3digital.com.br

Acariciando esperanças”Francisco Fernandes de Araujo – Contato: contato@elo3digital.com.br

Cronos e Narciso” – Pedro J. Bondaczuk – Contato: WWW.editorabarauna.com.br

Lance Fatal” – Pedro J. Bondaczuk - Contato: WWW.editorabarauna.com.br



Obs.: Se você for amante de Literatura, gostar de escrever, estiver à procura de um espaço para mostrar seus textos e quiser participar deste espaço, encaminhe-nos suas produções (crônicas, poemas, contos, ensaios etc.). O endereço do editor do Literário é: pedrojbk@gmail.com. Twitter: @bondaczuk. As portas sempre estarão abertas para a sua participação.



Vastos tapetes de plantas em pleno mar



Na área em que se localiza o famoso (e perigoso) “Triângulo das Bermudas” está um dos mais espetaculares e belos mistérios da natureza. Em determinado trecho do Oceano Atlântico o marinheiro que nunca esteve por aquelas bandas se surpreende quando vê à sua frente quilômetros e mais quilômetros de um “tapete verde” sobre as águas, como um enorme e irreal gramado. Mas não se trata de nenhuma miragem. Essas formações devem-se a um certo tipo de algas, conhecido como “sargaços”, cujo nome científico é “Sargassum halimium lasianthum”. Esclareça-se que esse tipo de planta não é exclusivo daquela região do hemisfério norte.

No litoral brasileiro, por exemplo, existem vários tipos delas. É mais comum que os sargaços cresçam grudados às rochas à beira mar. Todavia, podem se espalhar oceano afora, por vastas extensões, como ocorre na região do Triângulo das Bermudas. O naturalista Eurico Cabral de Oliveira, da Universidade de São Paulo, especialista em algas marinhas, explicou, em matéria publicada pelo site “Mundo estranho”, como essas plantas formam os tapetes verdes em pleno mar que espantam quem os vê pela primeira vez: “Enormes colônias de sargaços boiam nas águas mornas do Atlântico graças às suas vesículas flutuadoras, que funcionam como pequenos balões cheios de ar”.

Muitos que já navegaram na região do Caribe chegaram até a pensar que estavam delirando diante de tal visão, tão irreal ela lhes pareceu. Os navegadores europeus, responsáveis pelo de4scobrimento do Novo Mundo, por não compreenderem devidamente o fenômeno, deixaram narrativas aterradoras sobre navios aprisionados no Mar dos Sargaços, com tripulações inteiras morrendo à míngua pelo fato dos barcos serem impedidos de saírem do lugar. Não se sabe, todavia, o quanto há de verdade e o quanto de fantasia em tais narrativas. Afinal, marinheiros tendiam (e provavelmente tendem) a ser exagerados, até para valorizar ainda mais suas façanhas.

Essas plantas, com apêndices foliáceos, e vesículas redondas que agem como flutuadores, se adaptam muito bem às altíssimas salinidades. Elas manifestam-se de duas formas. Às vezes aparecem em tufos isolados, formando milhares de pequeninas “ilhas” verdejantes, de um efeito visual incrível. Em outros casos, surgem como verdadeiros “campos” de vegetação marinha flutuando ao sabor dos ventos. É como se a gente visse um enorme pasto só que, ao invés dele estar estático, balança de um lado para outro. Esse é o Mar dos Sargaços, que fica a meio caminho entre a América do Norte e a Europa.

O primeiro europeu a descrever esse fenômeno, em 1492, foi o navegador genovês Cristóvão Colombo, mas sem os exageros de tantas e tantas outras narrativas feitas por centenas de marujos. E ele bem que poderia exagerar, nem que fosse apenas um pouco, pois encontrou sérias dificuldades para conduzir a caravela Nina rumo à América, atravessando aquela região que, além desse obstáculo, para ele novo, é uma zona de calmaria, o que atrapalhava a navegação que na época era feita por barcos à vela e, portanto, dependentes de ventos para se movimentar.

E olhem que o Mar de Sargaços não é pouca coisa, como os desavisados possam supor. É um obstáculo gigante, magnífico, de enormes proporções. Afinal, são cinco milhões de quilômetros quadrados cobertos por algas, e aa área é delimitada, para complicar ainda mais, por quatro correntes marítimas: a do Golfo do México, a do Atlântico Norte, a das Canárias e a do Norte Equatorial.

Os tufos de plantas raramente possuem, isolados, mais de 30 centímetros de diâmetro e têm uns poucos decímetros de altura. A coloração é verde oliva na parte superior. Em alguns trechos essa cor é clara ou amarelada. Na base, todos os sargaços são castanhos. Sobre a superfície, brotam milhões de cogumelos parasitas. Diversos pequenos animais sobrevivem à custa dessas algas e nelas os peixes voadores depositam suas ovas. Sob essa capa verde oliva há muita vida. Crustáceos, de vários tipos e tamanhos, são encontrados ali. E milhões de peixes circulam debaixo dos sargaços, num dos mais expressivos exemplos de mimetismo.

Cristóvão Colombo, ao navegar por aquela área, a princípio nem acreditou no que viu. Afinal, trata-se de um fenômeno razoavelmente raro nos mares. Antes de descobrir a América, o genovês, portanto, teve que ultrapassar antes o “guardião” do novo continente, o “Triângulo da Morte”, com seus mistérios e sua selvagem beleza e por pouco não pagou com a vida por sua ousadia.

Boa leitura!



O Editor.

Acompanhe o Editor pelo twitter: @bondaczuk
Bic


* Por Núbia Araujo Nonato do Amaral


Coração de poeta deve ser de papelão,
desmancha quando chove, racha quando
esquenta e no inverno conforta.
Coração de papelão não
sabota e nem engana ninguém,
só doido pra dar crédito a um poeta
borra botas que na falta
de um céu estrelado se contenta
com os contornos de
uma velha bic sem tampa.

* Poetisa, contista, cronista e colunista do Literário



A casa azul



* Por Talis Andrade


Eu poderia ser feliz
em uma casa azul
à beira de um lago
Uma casa azul
ladeada por árvores
uma casa azul
com varandas
nos lados
Uma casa azul
com sinos de vento
e o canto dos pássaros
eu poderia ser feliz
Se existisse uma casa azul
de tão bonita a casa
talvez você consentisse
em morar comigo

* Jornalista, poeta, professor de Jornalismo e Relações Públicas e bacharel em História. Trabalhou em vários dos grandes jornais do Nordeste, como a sucursal pernambucana do “Diário da Noite”, “Jornal do Comércio” (Recife), “Jornal da Semana” (Recife) e “A República” (Natal). Tem 11 livros publicados, entre os quais o recém-lançado “Cavalos da Miragem” (Editora Livro Rápido).



A moça famosa


* Por Danielle Giannini


Se não fosse a padaria, a vida no bairro não teria curso. Pelo menos ninguém saberia do curso da vida do bairro sem a padaria. Foi lá que ouvi falar de muitas pessoas que não conhecia, embora as visse com freqüência, ou passei a notá-las após ouvir falar sobre elas. Myrella foi uma dessas. Um mulherão para marmanjo algum botar defeito. Pelo menos os marmanjos que não freqüentavam a padaria, pois lá sabia-se tudo sobre ela. Até a verdade que lhe era mais cara.

Foi um choque para o chapeiro quando ouviu pela primeira vez a revelação, foi uma bomba que estilhaçou seus brios masculinos. Demorou cinco segundos para se recompor do susto e fazer a notícia chegar ao caixa, não sem antes passar pelos rapazes do balcão de pães e atordoar o moço que corta frios; quase perdeu o dedo na máquina, o coitado, tamanho assombro. Justo ela, uma mulher tão linda, tão alta, tão simpática, aparecia na televisão todos os dias e não era cheia da metidice de alguns artistas famosos. Conversava com os meninos da padaria sem economizar sorrisos.

Quem contou tudo foi a Zefa, do salão de beleza instalado no meio do quarteirão, entre a padaria e o ponto de táxi. Zefa sabia de tudo porque as clientes, na falta do que dizer, contavam seus segredos. Sabia-se de tudo, então só podia ser verdade. Pensando bem, até que Myrella era mesmo estranha, não notou as orelhas, o jeito de colocar o cabelo. E a sobrancelha, então, aquela linha de pêlos sobre os olhos dizia tudo.

Na tarde em que Zefa do salão entrou na padaria para contar o segredo da moça bonita do bairro, artista de televisão e uma simpatia, o assombro se fez sentir no lanche vespertino em muitas casas. Não teve pão que prestasse. O padeiro beirou o colapso, justo ela que o inspirava na sua tarefa rotineira. Amassava o pão como se fizesse carinhos para ela. Fato é que a receita desandou, aliás desandou toda sua lógica de homem, macho, valente. O pão não cresceu nos dias que se seguiram e os prejuízos já ameaçavam a padaria quando eu soube do caso, caso tremendo. Lembro-me de tê-la visto na televisão na noite anterior balançando os cabelos com brilho de comercial de shampoo. Mas se a moça quis assim, que assim fosse, ou pelo menos parecia ser, sim, pois dessa vez ninguém precisou contar nada a Zefa, ela viu tudo com seus próprios olhos, ou julgou ter visto algo além do esperado.

O que ninguém esperava é que a moça bonita e famosa, artista de TV e educadíssima, com um cabelo que brilhava, resolvesse ir embora. Com tamanho burburinho sobre algo tão pessoal, Myrella mudou-se do bairro sem deixar pistas a não ser o rastro dos comentários que se seguiram à mudança; partiu sem se despedir de ninguém, nunca mais colocou os pés na padaria, nem no salão de beleza, só aparecia mesmo no programa da TV.

A indignação foi geral; era tão boa moça. Até esquecerem o assunto, ninguém deixou Zefa em paz. Zefa, você viu direito? Vi, sim, tá duvidando? Foi quando eu depilei a perna dela. Tinha um volume estranho. Eu tô te dizendo, essa moça é homem. Vocês estão tudo arrastando a asa é pra cima de um homem. Azar de vocês. Mas Zefa, você viu a coisa? Vi foi o volume, o que mais você queria? Desaforada!

* Jornalista – blog http://www.lugaresdomundo.com



Caminho dos ventos


* Por Odete Ronchi Baltazar


A saudade,
teu presente em meus dias,
desta vez
veio embrulhada
em laços de solidão.
E me perdi em nós,
atados aos meus braços vazios...
O que fazer dos meus versos
que vadios,
esperam por teu amar?
O que fazer se não apaguei teus rastros
em meus poemas
que agora escrevem minhas dores
junto ao teu nome neste céu azul?
Escreverei em brisas do norte que levarão
aos teus ouvidos as minhas canções
e deixarão, em mim, 
o teu olhar,
ao retornarem  a mim,
com teu doce vento sul.



* Poetisa
Informação por osmose


* Por Luciane Evans


Dia desses ouvi de dois jovens, ambos com menos de 30 anos, que informação diária se obtém por osmose. "Por isso, não leio jornal", justificou um deles, tendo o outro como cúmplice da afirmação. Na hora, juro que o sangue subiu e deu uma vontade louca de vomitar milhões de palavras e palavrões, ou então gritar: "Porra, a gente se mata todos os dias pensando em formas de lides diferentes, novos assuntos, pautas ousadas e  você vem me falar que não é preciso ler nada disso para estar informado? Vai tomar no cú!". Não me arrisquei, não sou tão louca assim. 

Voltei para casa com o sapo agarrado na garganta e muitas questões. Jornalista é um povo estranho mesmo. É uma gente louca, incoerente, desleixada, cheia de mania, acha que sabe de tudo, adora vender seu peixe e contar seus casos gloriosos.

Mas afinal, quem são eles? Que tribo de gente esquisita é essa, que a caminho da redação, em vez de ouvir no  carro o bom e velho rock'n roll para relaxar, escuta  a voz do colega de rádio dando as últimas notícias? Que povo é esse que degusta o café da manhã saboreando manchetes, títulos, bigodes, lides e infografias? 

Mas que gente louca é essa que é capaz de se mostrar firme ao entrevistar garotos do tráfico ou então meninas da prostituição, mas volta para a redação com os olhos cheios de lágrimas e chora como criança? Que gente maluca é essa que sai no meio do temporal, enquanto estão todos procurando um lugar para se esconder? Que povo incoerente  é esse que reclama do salário e dos chefes, mas quando sai da redação só sabe elogiar a profissão?

E pior: por causa de uma só matéria, esse desvairado  se mata todos os dias, corre contra o tempo, investiga dali, recebe tapa daqui, dá mais de 20 telefonemas em um único dia, ouve gritos de chefes, não tem tempo para almoçar e, muito menos, lanchar, fuma  um maço de cigarros em menos de 24 horas, não dorme, esquece de tomar água, acha que vai enfartar, tem pesadelos, manda emails para toda a sua lista para achar tal personagem, perde aula de pós graduação, cursinho disso e daquilo ...Para, num dia qualquer,  ver sua obra prima sendo usada para embrulhar bananas, peixes, pinturas ...ou ouvir de leitores em potencial que informação se obtém por osmose. 

Com a palavra,  Gabriel García Márquez:

Porque o jornalismo é uma paixão insaciável que só se pode digerir e humanizar mediante a confrontação descarnada com a realidade. Quem não sofreu essa servidão que se alimenta dos imprevistos da vida, não pode imaginá-la. Quem não viveu a palpitação sobrenatural da notícia, o orgasmo do furo, a demolição moral do fracasso, não pode sequer conceber o que são. Ninguém que não tenha nascido para isso e esteja disposto a viver só para isso poderia persistir numa profissão tão incompreensível e voraz, cuja obra termina depois de cada notícia, como se fora para sempre, mas que não concede um instante de paz enquanto não torna a começar com mais ardor do que nunca no minuto seguinte


* Jornalista