quinta-feira, 21 de setembro de 2017

Literário: Um blog que pensa


(Espaço dedicado ao Jornalismo Literário e à Literatura)


LINHA DO TEMPO: Onze anos, cinco meses e vinte e quatro dias de criação.


Leia nesta edição:


Editorial – Sempre sem razão.

Coluna Ladeira de Memória – Pedro J. Bondaczuk, crônica, “O vinho da vida”.

Coluna Contradições e paradoxos – Marcelo Sguassábia, crônica humorística Quebra de serviço”.

Coluna Do fantástico ao trivial – Gustavo do Carmo, crônica, “A sinceridade.

Coluna Porta Aberta – Leonardo Boff, artigo, “A cidadania desafiada pelo golpe parlamentar”.

Coluna Porta Aberta – Eduardo Bomfim, artigo, “A encruzilhada”.


@@@


Livros que recomendo:

Poestiagem – Poesia e metafísica em Wilbett Oliveira” (Fortuna crítica) – Organizado por Abrahão Costa Andrade, com ensaios de Ester Abreu Vieira de Oliveira, Geyme Lechmer Manes, Joel Cardoso, Joelson Souza, Levinélia Barbosa, Karina de Rezende T. Fleury, Pedro J. Bondaczuk e Rodrigo da Costa Araújo – Contato: opcaoeditora@gmail.com

Balbúrdia Literária”José Paulo Lanyi – Contato: jplanyi@gmail.com

A Passagem dos Cometas” Edir Araújo – Contato: edir-araujo@hotmail.com

Boneca de pano” - Edir Araújo – Contato: edir-araujo@hotmail.com

Águas de presságio”Sarah de Oliveira Passarella – Contato: contato@hortograph.com.br

Um dia como outro qualquer”Fernando Yanmar Narciso.

A sétima caverna”Harry Wiese – Contato: wiese@ibnet.com.br

Rosa Amarela”Francisco Fernandes de Araujo – Contato: contato@elo3digital.com.br

Acariciando esperanças”Francisco Fernandes de Araujo – Contato: contato@elo3digital.com.br

Cronos e Narciso” – Pedro J. Bondaczuk – Contato: WWW.editorabarauna.com.br

Lance Fatal” – Pedro J. Bondaczuk - Contato: WWW.editorabarauna.com.br




Obs.: Se você for amante de Literatura, gostar de escrever, estiver à procura de um espaço para mostrar seus textos e quiser participar deste espaço, encaminhe-nos suas produções (crônicas, poemas, contos, ensaios etc.). O endereço do editor do Literário é: pedrojbk@gmail.com. Twitter: @bondaczuk. As portas sempre estarão abertas para a sua participação.


Sempre sem razão


O ditado que diz que “da discussão, nasce a luz”, é um dos mais furados que conheço. Ainda se dissesse que o esclarecimento de qualquer controvérsia provém de um diálogo lúcido e sereno, entre pessoas do mesmo nível cultural e intelectual, haveria um pouquinho de possibilidade disso ocorrer. Mas não há segurança alguma de que de fato ocorra.

Desconheço quem, em uma conversa, mesmo que descontraída, se curve aos interlocutores e admita que não tenha razão em alguma tese, ou teoria, ou mera afirmação qualquer que defenda ou que tenha enunciado. Da boca para fora, até se pode admitir, para evitar que o papo descambe para a discussão. Mas, interiormente, quem pode jurar que essa pessoa tenha se dado por convencida?

Todos os debates a que assisti – embora eu, no meu íntimo, tenha atribuído a vitória a um dos debatedores – em termos de convencimento, sempre terminaram empatados. Ao cabo das apresentações das teses, das réplicas e das tréplicas, cada um dos contendores se manteve rigorosamente inflexível na sua posição original, sem arredar um mísero milímetro dela.

Ao debaterem projetos, moções e resoluções, no Congresso Nacional, você acredita, de fato, que algum parlamentar da situação (deputado ou senador, não importa) convença, mas convença mesmo, sem que restem dúvidas e senões, seu antagonista da oposição (ou vice-versa)? Se ambos pensassem da mesma forma, seriam do mesmo partido ou facção ideológica. Cada qual puxa a sardinha para a sua brasa e não arreda pé das suas convicções, até por mera vaidade.

Mesmo quando algum projeto é aprovado, a aprovação se dá com uma infinidade de emendas, a maioria redundante e inútil, meros penduricalhos legais, que os oponentes da proposta fazem questão de impor. Raros, raríssimos temas obtêm consenso dos parlamentares.

E isso é ruim? Não sei! Em alguns casos, é saudável, desde que as emendas corrijam omissões do projeto original e sejam, de fato, para melhorar o que foi proposto. Raramente, porém, é. Não passam de manifestações de vaidade, de quem não admite, em circunstância alguma, “dar o braço a torcer” a algum oponente. Esses debates, frise-se, dão-se, via de regra, em um clima “civilizado” (às vezes não), tendo sempre um mediador, no caso quem preside a sessão, para regulá-los.

Imagine, então, uma discussão, mesmo que seja sobre futebol, em que não haja nenhum tipo de arbitramento. Não raro, essas altercações descambam para as vias de fato ou coisa pior, como um conflito generalizado ou até mortes. Como pode nascer a “luz”, ou seja, o entendimento, o consenso ou o esclarecimento, se todos querem ter razão, embora (e principalmente) quando não a tenham?! Acho esse tipo de confronto (mesmo que o fulcro das discussões seja o de ideias), não somente uma inutilidade, uma estúpida perda de tempo, mas, não raro, até uma irresponsabilidade.

Reitero que prefiro o diálogo, sereno, maduro, lúcido, envolvendo iguais. Em caso de desigualdade, será uma covardia. O sábio jamais convencerá o néscio (e vice-versa). Se isso fosse possível, o ignorante perderia essa condição e galgaria degraus e mais degraus, rumo à sabedoria. Não galga.

É possível que ao se dialogar, com serenidade e bom-senso, quem tenha argumentos sólidos consiga convencer, minimamente, quem não o possua. Nunca, todavia, existe uma certeza, nem a esse propósito, nem a respeito de coisa alguma. Aliás, minto. Há uma determinada situação em que o resultado de qualquer debate ou discussão é único e consensual.

O escritor francês, Philippe Destouches, destaca qual é essa circunstância. Afirma, em um de seus tantos textos: “Os ausentes nunca têm razão”. Ou seja, quando se discute determinada tese, apresentada por quem não pode se fazer presente para defendê-la, ela é liminarmente derrotada, mesmo que aos olhos do mundo seja a mais lídima expressão da verdade.

Ademais, a ausência anula qualquer possibilidade de diálogo. Caso haja uma só pessoa falando, haverá, é óbvio, somente um monólogo. E a razão, nem é preciso destacar, estará (pelo menos na cabeça dele) com quem estiver monologando. Portanto, se você tiver qualquer proposta que queira ver aprovada (seja num debate parlamentar, seja numa reunião de condomínio ou em outra assembleia qualquer), não delegue a ninguém, por mais confiança que tenha nesse delegado, a sua defesa. Faça-se presente. Só assim conseguirá impor a razão (mas a sua, claro)!

Boa leitura!

O Editor.



Acompanhe o Editor pelo twitter: @bondaczuk
O vinho da vida

* Por Pedro J. Bondaczuk

O que é literatura? Essa é uma pergunta recorrente, que me faço, amiúde, e que já respondi inúmeras vezes, sem que, todavia, nenhuma das minhas respostas, quaisquer das tantas definições que busquei dar, todas as caracterizações que procurei fazer, enfim, tudo o que disse e escrevi a propósito me convencesse. Sempre faltou alguma coisa. O que? Não sei. Se soubesse, preencheria a lacuna e nem pensaria mais a respeito.

Não faz muito, neste mesmo espaço, em uma de minhas tantas reflexões diárias (e põe tantas nisso!), indaguei: “A literatura tem alguma importância prática em nossa vida, ou não passa de mero passatempo (posto que muito agradável), uma espécie de refinado lazer?” E ponderei, antes mesmo de arriscar-me a dar uma resposta: “Sou suspeito (suspeitíssimo) para opinar, posto que vivo dela (da literatura, claro). É o meio pelo qual obtenho meu sustento”.

Emendei, mais adiante, já que evito ficar em cima do muro e não temo em emitir opinião quando a tenho formada, mesmo que incompleta ou imperfeita: “Entendo, todavia, que a literatura é muito importante para a ‘fermentação’ de ideias, para o estudo do comportamento das pessoas e para nos indicar, sobretudo, o que não devemos fazer, caso tenhamos intenção de obter sucesso em nossas atividades e na convivência do dia a dia. Contudo, ela tem lá sua importância, mesmo que relativa. Nem é inútil, como acusam os que não sabem ou não gostam de ler, e nem essencial à vida, como pretendem os que a produzem”.

Para fundamentar essa opinião, citei o que escreveu a propósito o ensaísta escocês, Thomas Carlyle: “A literatura é o vinho da vida, mas não pode ser o seu alimento”. Claro que concordo com essa opinião. Caso não concordasse, sequer a citaria. Porquanto, a bebida, se tomada com moderação, nos dá prazer. Mas se ingerida em excesso... embriaga e não alimenta.

Não estou sozinho nessa busca de definição do “fazer literário” e de descobrir se tem ou não utilidade prática. E, se tiver, qual ela é? Separei dezenas de declarações a propósito, de escritores dos mais variados gêneros, épocas, países e tendências, embora não pretenda maçá-lo, caro leitor, com essa enxurrada de erudição. Cito, todavia, o que o argentino Ricardo Piglia pensa (ou não pensa, mas inquire) a respeito. Por que o escolhi, e não a outro qualquer? Por vários motivos. Um deles é que se trata de escritor da minha geração, meu contemporâneo. O outro (o principal deles) é que gosto do seu modo de escrever, do seu estilo, das suas idéias, da sua lucidez. E o outro, ainda, é que penso exatamente a mesma coisa acerca do que declarou.

Ricardo Piglia afirmou: “Para mim, a literatura é um espaço fraturado, onde circulam diferentes vozes, que são sociais. A literatura não está posta em nenhum lugar como uma essência; ela é um efeito. O que torna um texto literário? Questão complexa, à qual, paradoxalmente, o escritor é quem menos pode responder. Num certo sentido, um escritor escreve para saber o que é a literatura”. Pois é, escrevemos no afã de fazermos essa descoberta. Talvez, até, já a tenhamos feito e, contudo, não tenhamos certeza sobre nossas conclusões.

Ainda em referência ao meu texto, que citei anteriormente, ponderei, na oportunidade: “Se a literatura é importante na vida das pessoas (e estou absolutamente convicto que é), qual é seu verdadeiro papel no estudo dos seres vivos (principalmente dos humanos)? Para quê ela serve? Para divertir, ou para instruir, orientar, analisar e concluir?

Alguém pode, a esta altura, perguntar: ‘mas não temos a ciência para isso?’. Temos. Mas somente ela não basta. A vida não se restringe a leis naturais e imutáveis e nenhum ser vivo reage de forma absolutamente igual. Ela é sutil e não comporta análises mecânicas e genéricas. Para sua compreensão, são necessários exemplos, das várias formas de comportamento das pessoas. Ainda assim, somos incapazes de compreender em profundidade esse maravilhoso mistério, esse privilégio, essa magnífica aventura que é viver”.

E, mais uma vez, recorri a um nome ilustre para fundamentar o que afirmei. Dessa vez “convoquei”, para o papel de testemunha, o escritor, sociólogo e filósofo francês, Roland Barthes, que declarou a respeito: “A ciência é grosseira, a vida é sutil, e é para corrigir essa distância que a literatura nos importa”. Pois é, e importa mesmo. E requer de quem a exerce não apenas rigor, correção (sobretudo na linguagem), mas, sobretudo, responsabilidade. Afinal, literatura não se faz oralmente, mas através da escrita.

Ponderemos. Se na conversação informal, naquela que utilizamos no dia-a-dia, no lar, no trabalho e em nossas relações sociais; a comum, trivial, corriqueira e na maioria das vezes eivada de incorreções vocabulares e gramaticais, e que quase nunca é policiada, temos enorme responsabilidade por tudo o que dizemos (embora sequer atinemos), dadas as conseqüências produzidas, muito mais importante se torna, é evidente, o que escrevemos, e como o fazemos. Nunca sabemos, por exemplo, em que mãos esses textos vão cair, qual o uso que deles será feito e, principalmente, por quem. Eles podem tanto nos engrandecer, como depor contra nós, quando não estivermos mais aqui, neste mundo (e provavelmente em nenhum outro) e, portanto, não pudermos nos defender ou justificar.

A tarefa da comunicação se complica, para muitos (e põe muito nisso!), quando feita através de texto. Implica, a priori, no conhecimento da grafia das palavras, das regras gramaticais, do significado exato de cada termo. A principal virtude de um bom redator, notadamente do escritor, é a clareza, seguida da concisão. É indispensável que se faça entendido.

Além disso, o que se escreve precisa ser interessante, tem que atrair o leitor, e prender a sua atenção. O comunicador (no nosso caso, o escritor) precisa, sobretudo, atentar para o essencial: o que vai comunicar e para quem. O que tem a dizer vai esclarecer os leitores, ajudar a formar uma opinião, servir de acréscimo ao seu acervo cultural, ou se trata, somente, de um conjunto de lugares-comuns, de um tosco rosário de críticas inconseqüentes, ou de um monótono desfiar de lamúrias neuróticas?

Caso não vá construir, ajudar ou orientar, o melhor é sequer escrever. A comunicação é importante demais para ser feita de forma desleixada, incompetente e desastrada. E Literatura é, antes e acima de tudo, a forma mais nobre e refinada de comunicação. É “o vinho da vida”, que dá prazer de fato a quem sabe apreciá-la, mas cujo consumo requer cautela, posto que “embriaga” e bagunça o tirocínio e a razão..




* Jornalista, radialista e escritor. Trabalhou na Rádio Educadora de Campinas (atual Bandeirantes Campinas), em 1981 e 1982. Foi editor do Diário do Povo e do Correio Popular onde, entre outras funções, foi crítico de arte. Em equipe, ganhou o Prêmio Esso de 1997, no Correio Popular. Autor dos livros “Por uma nova utopia” (ensaios políticos) e “Quadros de Natal” (contos), além de “Lance Fatal” (contos), “Cronos & Narciso” (crônicas), “Antologia” – maio de 1991 a maio de 1996. Publicações da Academia Campinense de Letras nº 49 (edição comemorativa do 40º aniversário), página 74 e “Antologia” – maio de 1996 a maio de 2001. Publicações da Academia Campinense de Letras nº 53, página 54. Blog “O Escrevinhador” – http://pedrobondaczuk.blogspot.com. Twitter:@bondaczuk
Quebra de serviço

* Por Marcelo Sguassábia

Com a riqueza e a fama, a gente se acostuma fácil. Duro mesmo é se readaptar ao inferno depois de uma bela temporada no paraíso. Mas agora é assim, e não há nada que se possa fazer a respeito. Material esportivo novo e à vontade? Foi-se o tempo. Enquanto um calção está em jogo, o outro – emprestado – ficou em casa de molho com sabão de ação concentrada para ver se sai uma mancha de saibro, causada por um escorregão feio na última partida. A queda, na quadra e no ranking, abriu um rasgo nos fundilhos, mas nada que uma tia velha que costura pra fora não possa resolver.

Troquei o treinador pelo paredão, e essa miserável alternativa consegue ser pior do que praticar com aquelas máquinas lançadoras de bolas (que, aliás, precisei permutar com 12 tubos de bolas Wilson, já que as três últimas que tinha estavam carecas e rachadas). Os bons tempos das nove raquetes novinhas e embaladas em plástico por partida, de 4 materiais diferentes, agora se resumem a uma filha única, de aro entortado e encordoamento frouxo. O pior é que não posso exigir muito dela nos treinos, caso contrário não sobra raquete para as partidas.

O contrato com a Nike foi quebrado unilateralmente, e tive que assinar às pressas com a paraguaia Neki, que é quem custeia o sabão de ação concentrada para tirar as manchas dos calções – o meu e o emprestado.

Na última partida ainda sob o contrato antigo, nem todos percebiam mas a inanição já minava a minha massa muscular, comprometendo a performance e distraindo minha atenção do jogo. Estávamos nas oitavas de final do US Open, e o juiz interrompeu a partida para dar uma raspança em um espectador que saiu do seu lugar para comprar um hambúrguer. O meu e todos os olhares do mundo voltaram-se para ele, já que ninguém pode se movimentar pela arquibancada com o jogo em andamento. A diferença é que, enquanto todos lamentavam a desconcentração causada pelo ocorrido, eu olhava salivando para aquele suculento sanduíche transbordante de recheio. Eu queria levar aquele Double Open Extra Burger para a cama e botar minha fome em luta corporal com ele.

Até outro dia, eu só assinava autógrafos e meus assessores cuidavam do resto. Agora, vivo assinando promissórias e empréstimos bancários. O último autógrafo que dei como astro das quadras foi para o irmão de um agiota para quem penhorei todos os troféus de Grand Slam, e que ainda se lembrava vagamente da minha glória antes da decadência.

Bem, depois prossigo este relato. O porteiro do prédio acabou de interfonar, dizendo que o representante da Laboste está subindo aqui para a minha kitnet. Veio falar sobre uma proposta de abandonar o patrocínio da Neki e assinar com a marca deles para a temporada 2018.


* Marcelo Sguassábia é redator publicitário. Blogs: WWW.consoantesreticentes.blogspot.com (Crônicas e Contos) e WWW.letraeme.blogspot.com (portfólio).



A sinceridade

* Por Gustavo do Carmo

Ser sincero é correr o risco de ser condenado ao fracasso.
Ser sincero virou motivo de piada. Tema de programa humorístico.
É preciso pedir aos outros para falar com sinceridade. Mas quando você pede, não gosta da verdade.

Tem aqueles que falam com sinceridade sem você pedir. Sem sequer ter pedido uma opinião. Mas, na verdade, estão é te julgando.

Seja franco. Confesse todos os erros que você cometeu. Vai perder a confiança de quem ouviu a sua confissão.

Se sinceridade fosse uma qualidade, os pais nos ensinariam desde cedo.

Eles ensinam a sermos honestos e não mentir. Não a ser sincero.

Por isso reprovam quando você é sincero com uma tia gorda ou com um primo feio.

Ser sincero para a sociedade é ser infantil. Por isso que as crianças são as pessoas mais sinceras que existem.

Não exija sinceridade de um amigo. Muito menos uma satisfação dele. Vai achar que você está cobrando. E ninguém gosta de ser cobrado.

Advogado não pode ser sincero. Vendedor não pode ser sincero. Postulante de emprego, muito menos.

Por isso, a sinceridade não vende. Não vende porque não presta?

Deve ser porque não serve.

Sinceridade não vale a pena.

Por isso, temos que ser falsos. Falsos como a sociedade.

A gente finge que é sincero.

Para ser sincero é preciso ser corajoso.

Não ter medo de perder amigos, amores, empregos, oportunidades, negócios, confiança, dignidade. Pois você se arrisca a tudo isso.

Ser sincero é correr o risco de ser condenado ao fracasso.


* Jornalista e publicitário de formação e escritor de coração. Publicou o romance “Notícias que Marcam” pela Giz Editorial (de São Paulo-SP) e a coletânea “Indecisos - Entre outros contos”.
Bookess - http://www.bookess.com/read/4103-indecisos-entre-outros-contos/ e
PerSe -http://www.perse.com.br/novoprojetoperse/WF2_BookDetails.aspx?filesFolder=N1383616386310




A cidadania desafiada pelo golpe parlamentar

* Por Leonardo Boff

Entendemos por cidadania o processo histórico-social que capacita a  massa humana de forjar condições de consciência, de organização, de elaboração de um projeto e de  práticas no sentido de  deixar de ser massa e de passar a ser povo, como sujeito histórico, plasmador  de seu próprio destino. O grande desafio histórico é certamente esse: como  fazer das massas anônimas, deserdadas e manipuláveis, um povo brasileiro  de cidadãos conscientes e organizados.

Vejo seis dimensões de uma cidadania plena:

- A dimensão econômico-produtiva: a pobreza material e política  é, entre nós, produzida e cultivada pelas oligarquias pois  assim podem dominar e explorar melhor as massas. Isto é profundamente injusto.

O pobre que não tiver consciência das causas de sua pobreza pela exploração não tem condições de realizar sua emancipação.

- A dimensão politico-participativa: se as pessoas mesmas não lutarem em prol de sua autonomia e por sua participação social nunca serão cidadãos plenos. Não tanto o Estado mas  a sociedade deve, em suas várias formas de organização e de luta, assumir esta tarefa.

- A dimensão popular: o tipo de cidadania vigente é de corte liberal-burguês, por isso inclui os que têm uma inserção no sistema produtivo e marginaliza os demais. É uma cidadania reduzida.  Não se reconhece ainda o caráter incondicional dos direitos independentemente de posse, de instrução e de condição social.

A construção da cidadania deve começar lá em baixo e estar aberta a todos. Ela já é exercida nos inúmeros movimentos sociais e nas associações comunitárias onde os excluídos constroem um novo tipo de cidadania e de democracia participativa.

- A dimensão de con-cidadania: a cidadania não define apenas a posição do cidadão face ao Estado, como sujeito de direitos e não como um pedinte (não se há de pedir nada ao Estado mas reivindicar; os cidadãos devem organizar-se não para substituir o Estado mas para fazê-lo funcionar). A con-cidadania define o cidadão face a outro cidadão, mediante a solidariedade e a cooperação, como paradigmaticamente foi mostrado na Campanha  contra a Fome, a Miséria e em favor da Vida, herança imorredoura de Herbert de Souza, o Betinho.

- A cidadania ecológica: cada cidadão e toda a sociedade têm o direito de gozar de uma qualidade de vida decente. Isso só é possível se houver uma relação de cuidado e de respeito para com a natureza. E se mostra  pela não poluição do ar, das águas. dos solos e a não quimicalização dos alimentos. Cada cidadão deve se conscientizar degarantir um futuro à Casa Comum e herdá-la habitável para as gerações futuras.

- A cidadania terrenal: a con-cidadania se abre hoje à dimensão planetária, incorporando cuidado para com  única Casa Comum e com bens e serviços  limitados. Importa viver os vários erres (r) do pensamento ecológico: reduzir, reusar, reciclar, rearborizar, rejeitar a propaganda enganosa, respeitar todos os seres etc. Não somos apenas cidadãos nacionais mas também terrenais, responsáveis pela Terra, como Casa Comum.

Nesse momento após o golpe jurídico-parlamentar de 2016 a cidadania é desafiada a confrontar-se com  dois projetos antagônicos, disputando a hegemonia: o projeto dos endinheirados, antigos  e novos, articulados com as corporações transnacionais querem um Brasil menor, de no máximo 120 milhões, pois assim, acreditam, daria para administrá-lo em seu benefício, sem maiores preocupações; os restantes milhões que se lasquem pois sempre se habituaram a viver na necessidade e sobreviver como podem.

O outro projeto,  assumido pela cidadania, quer construir um Brasil para todos, pujante, autônomo e soberano face às pressões das potências militaristas, técnica e economicamente poderosas que visam a estabelecer um império do tamanho do planeta e viver da rapinagem  das riquezas dos outros países. Estes se associam com as elites nacionais, que estão atrás do golpe de 2016. Elas aceitam ser sócios menores, ao troco  de vantagens de seu alinhamento ao projeto-mundo. Assim fizeram no golpe civil-militar de 1964 e no atual jurídico-parlamentar de 2016.

A correlação de forças é muito desigual e corre em favor das oligarquias endinheiradas. Mas estas não têm nada a oferecer para os milhões de brasileiros, especialmentepara os pobres, senão mais empobrecimento. Estas elites não são portadoras de esperança e, por isso, são condenadas a viver sob permanente medo de que, uma dia, esta situação possa se reverter e perderem sua situação de opulência e de privilégios. Esse dia chegará.

O futuro pertence especialmente aos humilhados e ofendidos de nossa história que  herdarão as bondades que a Mãe Terra-Brasil reservou a todos. Valeu a pena a sua resistência, a indignação e a coragem de mudar em direção de um Brasil do qual podemos nos orgulhar.

* Leonardo Boff é teólogo e autor de “Tempo de Transcendência: o ser humano como projeto infinito”, “Cuidar da Terra-Proteger a vida” (Record, 2010) e “A oração de São Francisco”, Vozes (2009 e 2010), entre outros tantos livros de sucesso. Escreveu, com Mark Hathway, “The Tao of Liberation exploring the ecology on transformation”, “Fundamentalismo, terrorismo, religião e paz” (Vozes, 2009). Foi observador na COP-16, realizada recentemente em Cancun, no México.




A encruzilhada

* Por Eduardo Bomfim

O País vive uma encruzilhada Histórica que não surgiu de repente e muito menos caiu do céu como uma praga dos deuses contra uma nação continental, herdeira de um processo civilizatório original, próprio ao nosso itinerário singular e riquíssimo.

A partir do século XXI a globalização financeira intensificou uma ofensiva contra os Estados, sim, porque grande parte das nações do então chamado terceiro mundo, mesmo que tenham alcançado a independência formal, não conquistaram a soberania econômica, política etc.

O processo da globalização financeira dispõe, além das guerras de rapina em várias regiões do planeta, de instrumentos tão eficazes como o uso das armas. Trata-se da guerra de ideias via complexos midiáticos que atingem o conjunto das sociedades como se fossem potentes artefatos que visam pulverizar as identidades e a vontade dos povos.

O Brasil tem sido alvo qualificado por ser uma nação continental consolidada, uma das cinco maiores do mundo, com riquezas estratégicas e possuir papel geopolítico global incontornável, a não ser que a sociedade seja fragmentada, abatida em sua identidade, pilar central da nacionalidade.

O processo da quebra do parque industrial brasileiro já vem de décadas, as pressões contra os investimentos em ciência e tecnologia são tremendas, a crise na educação é retrato da falta de qualquer projeto de longo curso com a força de trabalho e a ausência de um plano estratégico de desenvolvimento do País.

O que o capital rentista e a governança mundial que a ele serve buscam é a recolonização física do País e a mental da sociedade através de uma agenda global que abdica de pensar e construir um pensamento que aglutine os brasileiros em torno de uma perspectiva de progresso e independência efetivos.

A gravíssima crise que sacode as instituições republicanas, alicerces da nação, é resultante de todo esse colonialismo econômico, dependência mental a uma agenda social do ódio, de todos contra qualquer um e de qualquer um contra todos, dirigida pela grande mídia, ao sabor dos interesses estratégicos de nações contrárias ao protagonismo do Brasil.

O País necessita de uma política maior de Estadismo democrático, que recupere o equilíbrio perdido, de novos rumos à altura do seu potencial geopolítico, das justas aspirações da sociedade brasileira.


* Advogado.