sábado, 18 de novembro de 2017

Literário: Um blog que pensa


(Espaço dedicado ao Jornalismo Literário e à Literatura)


LINHA DO TEMPO: Onze anos, sete meses e vinte e um dias de criação.


Leia nesta edição:

Editorial – Forma e conteúdo.

Coluna Contradições e ParadoxosMarcelo Sguassábia, texto humorístico, “Six o’clock”.

Coluna Direto do ArquivoEdmundo Pacheco, poema, “Testamento”.

Coluna ClássicosDinah Silveira de Queiroz, conto,A moralista”.

Coluna Porta AbertaFlora Figueiredo, poema, “E agora?”.

Coluna Porta Aberta – Clóvis Campêlo, crônica, “Mulheres de verdade?”.

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Livros que recomendo:

Poestiagem – Poesia e metafísica em Wilbett Oliveira” (Fortuna crítica) – Organizado por Abrahão Costa Andrade, com ensaios de Ester Abreu Vieira de Oliveira, Geyme Lechmer Manes, Joel Cardoso, Joelson Souza, Levinélia Barbosa, Karina de Rezende T. Fleury, Pedro J. Bondaczuk e Rodrigo da Costa Araújo – Contato: opcaoeditora@gmail.com

Balbúrdia Literária”José Paulo Lanyi – Contato: jplanyi@gmail.com

A Passagem dos Cometas” Edir Araújo – Contato: edir-araujo@hotmail.com

Boneca de pano” - Edir Araújo – Contato: edir-araujo@hotmail.com

Águas de presságio”Sarah de Oliveira Passarella – Contato: contato@hortograph.com.br

Um dia como outro qualquer”Fernando Yanmar Narciso.

A sétima caverna”Harry Wiese – Contato: wiese@ibnet.com.br

Rosa Amarela”Francisco Fernandes de Araujo – Contato: contato@elo3digital.com.br

Acariciando esperanças”Francisco Fernandes de Araujo – Contato: contato@elo3digital.com.br

Cronos e Narciso” – Pedro J. Bondaczuk – Contato: WWW.editorabarauna.com.br

Lance Fatal” – Pedro J. Bondaczuk - Contato: WWW.editorabarauna.com.br




Obs.: Se você for amante de Literatura, gostar de escrever, estiver à procura de um espaço para mostrar seus textos e quiser participar deste espaço, encaminhe-nos suas produções (crônicas, poemas, contos, ensaios etc.). O endereço do editor do Literário é: pedrojbk@gmail.com. Twitter: @bondaczuk. As portas sempre estarão abertas para a sua participação.



Forma e conteúdo


O texto literário bom, o que conquista, simultaneamente, corações e mentes, o que nunca perde a atualidade e “imortaliza” o autor, é o que apresenta, ao mesmo tempo, conteúdo e forma, num casamento perfeito e indissolúvel.

Há muita boa ideia, concebida com extrema felicidade, não raro até genial, que se arruína em decorrência de uma escrita tortuosa, mambembe, desengonçada, cifrada, obscura e, em boa parte das vezes, eivada, até, de um sem-número de erros gramaticais, quando não de mera grafia. Uma pena!

Sempre que me cai nas mãos um texto com essas características, tão defeituoso e relaxado, lamento e ao mesmo tempo fico com raiva de quem, desperdiçou – por ignorância, pressa, ou na maioria das ocasiões, preguiça – um assunto tão bom.

Em contrapartida, há textos leves, coloquiais, fluentes, agradáveis, rigorosamente corretos no aspecto formal que, à primeira leitura encantam e convidam a uma segunda mas que... São como aquelas laranjas com “sorose”, doença muito comum de frutas cítricas. São bonitas, atraentes e aparentemente perfeitas por fora. Todavia, você pode espremê-las o quanto quiser, que não sairá mísera gota de suco. São textos vazios, ocos, rigorosamente sem conteúdo. Ou seja, bonitinhos, porém ordinários.

Minha reação ao ler peças com essa conformação é a mesmíssima de quando leio as formalmente capengas: lamentação e raiva. O lamento é pelo desperdício de talento. A ira decorre da falta de substância, de cultura, de visão de vida do autor dessas prosopopeias.

Qual dos dois, forma ou conteúdo, é mais importante? Ambos, evidentemente. Um sem a outra não prospera e nem vinga, e vice-versa. Um texto que case ambas as características é o que considero boa literatura. Há quem afirme que não existe a que seja má. Para estes, ou o texto é literário (e portanto bom nos dois aspectos), ou se trata de mera caricatura, de um monstrengo. Ou seja, não é literatura e ponto. Acho esse raciocínio (embora o respeite) radical em demasia, extremamente reducionista.

Na elaboração de uma obra literária, há uma ordem óbvia a ser seguida, que muitos sequer se dão conta. Primeiro é indispensável que o escritor decida “o que” pretende escrever. Ou seja, é mister que determine o conteúdo do texto que planeja produzir.

Convém que o analise em seus mais variados aspectos, que seja humilde e estude a fundo tudo o que lhe diga respeito, que pesquise o assunto nas mais diversas fontes ao seu dispor, antes de formar juízo definitivo a propósito.

A seguir, vem a tarefa complementar, ou seja, “como” escrever. É aí que muita gente se perde e arruína o que poderia ser uma obra-prima. Alguns, por exemplo, confiam sem restrições em um hipotético talento inato que nem mesmo têm certeza de possuir. Outros acham que o produto final virá do céu, do ar, do nada, em um súbito rasgo de inspiração, que guie seu cérebro e suas mãos pelos meandros do idioma ou da gramática. Ou são enganados por outra ilusão qualquer, de idêntico jaez.

Isso tudo, claro, não irá acontecer. Recomenda-se ao escritor que, nesta etapa da produção aja, por exemplo, como a maioria dos pintores. Estes, antes de iniciarem a pintura de uma tela, elaboram diversos esboços do que pretendem pintar. Muitos desses ensaios dos grandes mestres são vendidos, anos após sua morte, a peso de ouro, nas principais casas de leilão de artes, como a Sothesby ou a Christies, alcançando cifras às vezes mirabolantes, que ascendem a alguns milhares, quando não milhões de dólares (ou de libras, ou de euros, como quiserem).

Quem não gostaria de possuir um desses estudos, digamos, de um Rembrandt, ou Van Gogh, ou Rafael? Eu, se fosse um sujeito endinheirado, também pagaria fortunas por eles. E os exibiria na parte mais nobre da minha casa, com o maior orgulho.

O escritor que aposta na qualidade (e todos deveriam apostar) age da mesma forma. Reescreve o texto quantas vezes forem necessárias, até que se dê por satisfeito. Isso se eventualmente se der.

Perguntaram, certa ocasião, a Paul Valéry – escritor, filósofo e poeta francês, um dos expoentes máximos da escola simbolista – o que era necessário para se escrever um bom poema. Ele respondeu laconicamente: “palavras!”. Teria, por acaso, excluído o conteúdo, em favor apenas da forma? Longe disso.

O “o que” escrever estava implícito e, para ele era tão óbvio, que sequer julgou necessário citar. Mas a forma, o “como” escrever não pode jamais ser negligenciada; Afinal, não por acaso, literatura é eufemisticamente classificada de “belas letras”. Mas sem nunca dispensar o conteúdo, claro.

Boa leitura!


O Editor.

Acompanhe o Editor pelo twitter: @bondaczuk
Six o’clock



* Por Marcelo Sguassábia



Eu poderia começar dizendo que o sol do horário de verão britânico entrava coado pelos vitrais da Abadia para pousar solene na tumba da Rainha Mary II. E assim o faço, por mais romanticamente descritivo que seja. O spalla da Orquestra Filarmônica Real repete outra vez a passagem mais difícil do concerto, aquilo definitivamente não fora escrito para amadores.

Na seiscentista monarquia, quantas vezes a Mary infante teria atravessado a nave do templo, para mais tarde casar-se, coroar-se e entrar pela derradeira vez no monumento gótico, aos 32, num suntuoso ataúde. Em outra ala, no Poet’s Corner, Dickens vara o tempo em sono eterno, possivelmente escoltado pelo avarento Ebenezer Scrooge e seus fantasmas. O eco do andar de um Beefeather vem trazê-lo de volta ao violino. Então empenha toda a alma num vibrato, pensando no tio-avô que definha não muito longe dali. Talvez fosse seu último Natal. Apesar do rosto pouco vincado, da mão forte de veias saltadas, da voz rouca ao pedir para passar o pão à mesa envolta em aromas de velas e sopas, tudo indicava que não tornaria a ver os fogos de artifício anunciarem o Ano Novo sobre o Tâmisa.

Mantenha o violino afastado do sol, pois o calor faz a madeira rachar ou descolar”. O conselho do velho mestre dos tempos de conservatório ia e voltava em sua mente como o hipnótico tema do Adagio. Soa a última nota, em uníssono com o violoncelo de Edwin. Westminster é muda, pode-se ouvir o pousar da mosca entre duas teclas do órgão de tubos. É muda e assustadoramente triste a Abadia àquela hora, que os católicos chamam de Ave Maria.

Suas orelhas eram grandes, demasiado grandes para não serem notadas e odiadas por Anne Elisabeth. Ela jamais se interessaria por um orelhudo de dentes tortos. Turistas e mais turistas, às levas. Estrangeiros que já viram tudo na cidade e aparecem por ali nessa tarde quase noite, para roubar a concentração do ensaio disparando seus flashes, mesmo sendo proibido. Façam o sightseeing bem longe, comam fish and chips, corram afoitos com seus mapas para a roda gigante ou o Palácio de Buckingham, longe da real e absoluta treva que vem vindo, a treva só plenamente compreendida pelos súditos nativos da rainha. Eles são de Massachusetts, Iowa e Connecticut, seguem deixando cascas de amendoim sobre os restos mortais de quem ergueu a Londres mais sublime, posando no sarcófago de Newton como quem tira fotos com o Pateta e o Pato Donald. Dobrem o valor do ingresso, please, quem sabe assim cai pela metade o número dos abutres.

Em pizzicato dançam seus dedos e seus medos, na forma de mínimos elfos. Ele vê nas quatro cordas os quatro inconfessáveis sonhos desfeitos, os quatro planos futuros forçosamente adiados e as quatro vezes, só na última meia hora, em que bendisse mentalmente a névoa, os tijolos à vista, a hipoteca paga em dia e a velha e boa xícara de chá a lhe esperar de madrugada em Notting Hill.

Apesar do adiantado da hora, voltou à pé para o apartamento, repassando mentalmente o trecho massacrante da partitura e imaginando o interior do chalé que alugou em Greenwich para ocupar sozinho no fim de semana. Com uma plástica nas orelhas, quem sabe da próxima vez conseguisse levar Anne Elisabeth consigo.


* Marcelo Sguassábia é redator publicitário. Blogs: WWW.consoantesreticentes.blogspot.com (Crônicas e Contos) e WWW.letraeme.blogspot.com (portfólio).




Testamento


* Por Edmundo Pacheco


Não gostaria de morrer
Antes de belas coisas dizer
Antes de ver o dia nascer
As flores, o florescer...

Não gostaria,
Antes de meu melhor best-seller
Motivar filas nas livrarias,
De minha melhor peça
Lotar a Broadway.
Músicas cantadas pelo Chico, pelo Eça.
Prêmio Esso.
Quadros no Masp.
Entrevista no Jô.
Amarelas da Veja.
Cliente VIP da Vasp.
Convidado da Hebe.
Da Gabi e do Clô.
Garoto propaganda de cerveja...

Não gostaria...
Mas ai, que sina,
se não garanto a diária morfina
Morro de fome na próxima esquina...

Se garanto, morro de tédio nesta latrina...

O best-seller arquivado
O cérebro aos vermes doado.
A peça, incompleta por falta de talento.
As flores, murcharam antes do nascimento.

Músicas do Eça? Que que é isso?
Prêmio Esso?
- É nome de posto?
Quadros? - "Isso não é arte, é reborréia"...
Jô? Que Jô? O Soares? Da Globo?
- "Moleque, vai trabalhar e deixa de ser bobo"...
Veja? Vasp?
- "Você nem sabe o endereço do Masp"...

Poderia, antes de encerrar o meu ato
Fazer belas coisas, mas me deu diarréia.

Quem haveria de ler isso?
Um amigo?
Duvido! Que diria?
- "Isso nem é poesia"...
- "Não passam de lamentações à volta do umbigo"
- "Aceita teu destino, submisso".

Na verdade,
É verdade...

E, pra falar a verdade, estou pronto
Se morrer agora, neste ponto,
Não deixo obra incompleta,
Apenas a despesa do enterro.

Por que, então?
Por que não?
Por que é bobagem?
Não. É que me falta coragem.


* Escritor, poeta e jornalista.
A moralista

* Por Dinah Silveira de Queiroz

Se me falam em virtude, em moralidade ou imoralidade, em condutas, enfim, em tudo que se relacione com o bem e o mal, eu vejo Mamãe em minha ideia. Mamãe — não. O pescoço de Mamãe, a sua garganta branca e tremente, quando gozava a sua risadinha como quem bebe café no pires. Essas risadas ela dava principalmente à noite, quando — só nós três em casa — vinha jantar como se fosse a um baile, com seus vestidos alegres, frouxos, decotados, tão perfumada que os objetos a seu redor criavam uma pequena atmosfera própria, eram mais leves e delicados. Ela não se pintava nunca, mas não sei como fazia para ficar com aquela lisura de louça lavada. Nela, até a transpiração era como vidraça molhada: escorregadia, mas não suja. Diante daquela pulcritude minha face era uma miserável e movimentada topografia, onde eu explorava furiosamente, e em gozo físico, pequenos subterrâneos nos poros escuros e profundos, ou vulcõezinhos que estalavam entre as unhas, para meu prazer. A risada de Mamãe era um "muito obrigada" a meu Pai, que a adulava como se dela dependesse. Porém, ele mascarava essa adulação brincando e a tratando eternamente de menina. Havia muito tempo uma espírita dissera a Mamãe algo que decerto provocou sua primeira e especial risadinha:
Procure impressionar o próximo. A senhora tem um poder extraordinário sobre os outros, mas não sabe. Deve aconselhar... Porque... se impõe, logo à primeira vista. Aconselhe. Seus conselhos não falharão nunca. Eles vêm da sua própria mediunidade…

Mamãe repetiu aquilo umas quatro ou cinco vezes, entre amigas, e a coisa pegou, em Laterra.

Se alguém ia fazer um negócio, lá aparecia em casa para tomar conselhos. Nessas ocasiões Mamãe, que era loura e pequenina, parecia que ficava maior, toda dura, de cabecinha levantada e dedo gordinho, em riste. Consultavam Mamãe a respeito de política, dos casamentos. Como tudo que dizia era sensato, dava certo, começaram a mandar-lhe também pessoas transviadas. Uma vez, certa senhora rica lhe trouxe o filho, que era um beberrão incorrigível. Lembro-me de que Mamãe disse coisas belíssimas, a respeito da realidade do Demônio, do lado da Besta, e do lado do Anjo. E não apenas ela explicou a miséria em que o moço afundava, mas o castigo também com palavras tremendas. Seu dedinho gordo se levantava, ameaçador, e toda ela tremia de justa cólera, porém sua voz não subia do tom natural. O moço e a senhora choravam juntos.

Papai ficou encantado com o prestígio de que, como marido, desfrutava. Brigas entre patrão e empregado, entre marido e mulher, entre pais e filhos vinham dar em nossa casa. Mamãe ouvia as partes, aconselhava, moralizava. E Papai, no pequeno negócio, sentia afluir a confiança que se espraiava até seus domínios.

Foi nessa ocasião que Laterra ficou sem padre, porque o vigário morrera e o bispo não mandara substituto. Os habitantes iam casar e batizar os filhos em Santo Antônio. Mas, para suas novenas e seus terços, contavam sempre com minha Mãe. De repente, todos ficaram mais religiosos. Ela ia para a reza da noite de véu de renda, tão cheirosa e lisinha de pele, tão pura de rosto, que todos diziam que parecia e era, mesmo, uma verdadeira santa. Mentira: uma santa não daria aquelas risadinhas, uma santa não se divertia, assim. O divertimento é uma espécie de injúria aos infelizes, e é por isso que Mamãe só ria e se divertia quando estávamos sós.

Nessa época, até um caipira perguntou na feira de Laterra:
Diz que aqui tem uma padra. Onde é que ela mora? Contaram a Mamãe. Ela não riu:
Eu não gosto disso. — E ajuntou: Nunca fui uma fanática, uma louca. Sou, justamente, a pessoa equilibrada, que quer ajudar ao próximo. Se continuarem com essas histórias, eu nunca mais puxo o terço.

Mas, nessa noite, eu vi sua garganta tremer, deliciada:
Já estão me chamando de "padra"... Imagine!

Ela havia achado sua vocação. E continuou a aconselhar, a falar bonito, a consolar os que perdiam pessoas queridas. Uma vez, no aniversário de um compadre, Mamãe disse palavras tão belas a respeito da velhice, do tempo que vai fugindo, do bem que se deve fazer antes que caia a noite, que o compadre pediu:
Por que a senhora não faz, aos domingos, uma prosa desse jeito? Estamos sem vigário, e essa mocidade precisa de bons conselhos…

Todos acharam ótima a ideia. Fundou-se uma sociedade: "Círculo dos Pais de Laterra", que tinha suas reuniões na sala da Prefeitura. Vinha gente de longe, para ouvir Mamãe falar. Diziam todos que ela fazia um bem enorme às almas, que a doçura das suas palavras confortava quem estivesse sofrendo. Várias pessoas foram por ela convertidas. Penso que meu Pai acreditava, mais do que ninguém, nela. Mas eu não podia pensar que minha Mãe fosse um ser predestinado, vindo ao mundo só para fazer o bem. Via tão claramente o seu modo de representar, que até sentia vergonha. E ao mesmo tempo me perguntava:
Que significam estes escrúpulos? Ela não une casais que se separam, ela não consola as viúvas, ela não corrige até os aparentemente incorrigíveis? Um dia, Mamãe disse ao meu Pai, na hora do almoço:
Hoje me trouxeram um caso difícil... Um rapaz viciado. Você vai empregá-lo. Seja tudo pelo amor de Deus. Ele me veio pedir auxílio... e eu tenho que ajudar. O pobre chorou tanto, implorou... contando a sua miséria. É um desgraçado!

Um sonho de glória a embalou:
Sabe que os médicos de Santo Antônio não deram nenhum jeito? Quero que você me ajude. Acho que ele deve trabalhar... aqui. Não é sacrifício para você, porque ele diz que quer trabalhar para nós, já que dinheiro eu não aceito mesmo, porque só faço caridade!

O novo empregado parecia uma moça bonita. Era corado, tinha uns olhos pretos, pestanudos, andava sem fazer barulho. Sabia versos de cor, e às vezes os recitava baixinho, limpando o balcão. Quando o souberam empregado de meu Pai — foram avisá-lo:
Isso não é gente para trabalhar em casa de respeito!
Ela quis — respondeu meu Pai. — Ela sempre sabe o que faz!

O novo empregado começou o serviço com convicção, mas tinha crises de angústia. Em certas noites não vinha jantar conosco, como ficara combinado. E aparecia mais tarde, os olhos vermelhos.

Muitas vezes, Mamãe se trancava com ele na sala, e a sua voz de tom igual, feria, era de repreensão. Ela o censurava, também, na frente de meu Pai, e de mim mesma, porém sorrindo de bondade:
Tire a mão da cintura. Você já parece uma moça, e assim, então…

Mas sabia dizer a palavra que ele desejaria, decerto, ouvir:
Não há ninguém melhor do que você, nesta terra! Por que é que tem medo dos outros? Erga a cabeça... Vamos!

Animado, meu Pai garantia:
Em minha casa ninguém tem coragem de desfeitear você. Quero ver só isso!

Não tinha mesmo. Até os moleques que, da calçada, apontavam e riam, falavam alto, ficavam sérios e fugiam, mal meu Pai surgisse à porta.

E o moço passou muito tempo sem falhar nos jantares. Nas horas vagas fazia coisas bonitas para Mamãe. Pintou-lhe um leque e fez um vaso em forma de cisne, com papéis velhos molhados, e uma mistura de cola e nem sei mais o quê. Ficou meu amigo. Sabia de modas, como ninguém. Dava opinião sobre os meus vestidos. À hora da reza, ele, que era tão humilhado, de olhar batido, já vinha perto de Mamãe, de terço na mão. Se chegavam visitas, quando estava conosco, ele não se retirava depressa como fazia antes. E ficava num canto, olhando tranquilo, com simpatia. Pouco a pouco eu assistia, também, à sua modificação. Menos tímido, ele ficara menos afeminado. Seus gestos já eram confiantes, suas atitudes menos ridículas.

Mamãe, que policiava muito seu modo de conversar, já se esquecia de que ele era um estranho. E ria muito à vontade, suas gostosas e trêmulas risadinhas. Parece que não o doutrinava, não era preciso mais. E ele deu de segui-la fielmente, nas horas em que não estava no balcão. Ajudava-a em casa, acompanhava-a nas compras. Em Laterra, soube depois, certas moças que por namoradeiras tinham raiva da Mamãe, já diziam, escondidas atrás da janela, vendo-a passar:
Você não acha que ela consertou... demais?

Laterra tinha orgulho de Mamãe, a pessoa mais importante da cidade. Muitos sentiam quase sofrimento, por aquela afeição que pendia para o lado cômico. Viam-na passar depressa, o andar firme, um tanto duro, e ele, o moço, atrás, carregando seus embrulhos, ou ao lado levando sua sombrinha, aberta com unção, como se fora um pálio. Um franco mal-estar dominava a cidade. Até que num domingo, quando Mamãe falou sobre a felicidade conjugal, sobre os deveres do casamento, algumas cabeças se voltaram quase imperceptivelmente para o rapaz, mas ainda assim eu notei a malícia. E qualquer absurdo sentimento arrasou meu coração em expectativa.

Mamãe foi a última a notar a paixão que despertara:
Vejam, eu só procurei levantar seu moral... A própria mãe o considerava um perdido — chegou a querer que morresse! Eu falo — porque todos sabem — mas ele hoje é um moço de bem!

Papai foi ficando triste. Um dia, desabafou:
Acho melhor que ele vá embora. Parece que o que você queria, que ele mostrasse que poderia ser decente e trabalhador, como qualquer um, afinal conseguiu! Vamos agradecer a Deus e mandá-lo para casa. Você é extraordinária!
Mas — disse Mamãe admirada. — Você não vê que é preciso mais tempo... para que se esqueçam dele? Mandar esse rapaz de volta, agora, até é um pecado! Um pecado que eu não quero em minha consciência.

Houve uma noite em que o moço contou ao jantar a história de um caipira, e Mamãe ria como nunca, levantando a cabeça pequenina, mostrando a sua nudez mais perturbadora —seu pescoço — naquele gorjeio trêmulo. Vi-o ao empregado, ficar vermelho e de olhos brilhantes, para aquele esplendor branco. Papai não riu. Eu me sentia feliz e assustada. Três dias depois o moço adoeceu de gripe. Numa visita que Mamãe lhe fez, ele disse qualquer coisa que eu jamais saberei. Ouvimos pela primeira vez a voz de Mamãe vibrar alto, furiosa, desencantada. Uma semana depois ele estava restabelecido, voltava ao trabalho. Ela disse a meu Pai:
Você tem razão. É melhor que ele volte para casa.

À hora do jantar, Mamãe ordenou à criada:
Só nós três jantamos em casa! Ponha três pratos…

No dia seguinte, à hora da reza, o moço chegou assustado, mas foi abrindo caminho, tomou seu costumeiro lugar junto de Mamãe:
Saia!... — disse ela baixo, antes de começar a reza. Ele ouviu — e saiu, sem nem ao menos suplicar com os olhos.

Todas as cabeças o seguiram lentamente. Eu o vi de costas, já perto da porta, no seu andar discreto de mocinha de colégio, desembocar pela noite.
Padre Nosso, que estais no céu, santificado seja o Vosso Nome…

Desta vez as vozes que a acompanhavam eram mais firmes do que nos últimos dias.

Ele não voltou para a sua cidade, onde era a caçoada geral. Naquela mesma noite, quando saía de Laterra, um fazendeiro viu como que um longo vulto balançando de uma árvore. Homem de coragem, pensou que fosse algum assaltante. Descobriu o moço. Fomos chamados. Eu também o vi. Mamãe não. À luz da lanterna, achei-o mais ridículo do que trágico, frágil e pendente como um judas de cara de pano roxo. Logo uma multidão enorme cercou a velha mangueira, depois se dispersou. Eu me convenci de que Laterra toda respirava aliviada. Era a prova! Sua senhora não transigira, sua moralista não falhara. Uma onda de desafogo espraiou-se pela cidade.

Em casa não falamos no assunto, por muito tempo. Porém Mamãe, perfeita e perfumada como sempre, durante meses deixou de dar suas risadinhas, embora continuasse agora, sem grande convicção — eu o sabia — a dar os seus conselhos. Todavia punha, mesmo no jantar, vestidos escuros, cerrados no pescoço.

O texto acima foi publicado no livro "Histórias do Amor Maldito", Editora Record — Rio de Janeiro, 1967, seleção de Gasparino Damata. Foi considerado e consta do livro "Cem melhores contos brasileiros do século", seleção de Ítalo Moriconi, em edição da Objetiva — Rio de Janeiro, 2000, pág. 180.


* Romancista, contista e cronista, membro da Academia Brasileira de Letras.
E agora?

* Por Flora Figueiredo

O que é que eu faço
com essa volúpia
que se arredonda dentro de mim
em cornucópia
e destila gotas de mel e de cetim?
Esse ciclone que revira e arrebata,
entorta a regra, desintegra e quase mata,
faz arruaça, depois passa e vai embora!
O que é que faz um vendaval ensandecido
despejar flores no meu chão adormecido?

(In “Limão Rosa”, 2009)

* Poetisa, cronista, compositora e tradutora, autora de “O trem que traz a noite”, “Chão de vento”, “Calçada de verão”, “Limão Rosa”, “Amor a céu aberto” e “Florescência”; rima, ritmo e bom-humor são características da sua poesia. Deixa evidente sua intimidade com o mundo, abraçando o cotidiano com vitalidade e graça - às vezes romântica, às vezes irreverente e turbulenta. Sempre dentro de uma linguagem concisa e simples, plena de sutileza verbal, seus poemas são como um mergulho profundo nas águas da vida. 


Mulheres de verdade?

* Por Clóvis Campêlo
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Vejo no jornal que Amélia, a mulher de verdade cantada por Ataulfo Alves e Mário Lago, existiu mesmo. Chamava-se Amélia dos Santos Ferreira, morou em Realengo, no Rio de Janeiro, e morreu aos 91 anos, deixando dez filhos, muitos netos e bisnetos.

A notícia foi dada na coluna de Ancelmo Gois. Não sei se houve choros e velas no seu enterro, mas, com certeza, deixou o seu nome definitivamente gravado na história da MPB. Alô, alô, Realengo, aquele abraço.

Além de Amélia, Realengo também comportou o quartel onde Gilberto Gil ficou preso, nos anos 60, durante o regime militar, antes de ser deportado e exilado. Também aí, surgiu outra grande contribuição à música popular brasileira, no samba reconhecidamente de desenredo. O Rio de Janeiro, porém, era e continua lindo.

No jornal, também, no contexto das matérias publicadas sobre os 70 anos do início da II Guerra Mundial, tomo conhecimento da existência de Aninha dos Torpedos. Mulher bonita e sedutora, vagava pelos portos das capitais nordestinas, principalmente Recife e Salvador, atraindo marinheiros brasileiros e americanos que pudessem lhe fornecer informações sobre as rotas dos nossos navios mercantes.

Segundo o jornalista Wagner Sarmento, do Jornal do Commercio do Recife, para cada marinheiro seduzido por Aninha correspondia sempre o torpedeamento de algum navio. Aninha passou a ser considerada como uma espiã nazista infiltrada na província, dilacerando corações e as carcaças dos navios. Muito mais um mito, porém, do que uma realidade, a sua existência nunca foi efetivamente comprovada.

Essas mulheres, de verdade ou não, sacudiram a minha imaginação nesse final de semana ensolarado.
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  • Poeta, jornalista e radialista