domingo, 20 de agosto de 2017

Literário: Um blog que pensa


(Espaço dedicado ao Jornalismo Literário e à Literatura)


LINHA DO TEMPO: Onze anos, quatro meses e vinte e três dias de existência.


Leia nesta edição:

Editorial – Apenas meros fios.

Coluna Ladeira da Memória – Pedro J. Bondaczuk, poema, “Decifrando enigmas”.

Coluna Direto do Arquivo – Ruth Barros, crônica, “O descanso compulsório”.

Coluna Clássicos – Mário Quintana, poema, “Brinquedos de criança”.

Coluna Porta Aberta – Rafael Alberti, poema, “Os oito nomes de Picasso”.

Coluna Porta Aberta – João Alexandre Sartorelli, poema, “Meu pai”.


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Livros que recomendo:

Poestiagem – Poesia e metafísica em Wilbett Oliveira” (Fortuna crítica) – Organizado por Abrahão Costa Andrade, com ensaios de Ester Abreu Vieira de Oliveira, Geyme Lechmer Manes, Joel Cardoso, Joelson Souza, Levinélia Barbosa, Karina de Rezende T. Fleury, Pedro J. Bondaczuk e Rodrigo da Costa Araújo – Contato: opcaoeditora@gmail.com

Balbúrdia Literária”José Paulo Lanyi – Contato: jplanyi@gmail.com

A Passagem dos Cometas” Edir Araújo – Contato: edir-araujo@hotmail.com

Boneca de pano” - Edir Araújo – Contato: edir-araujo@hotmail.com

Águas de presságio”Sarah de Oliveira Passarella – Contato: contato@hortograph.com.br

Um dia como outro qualquer”Fernando Yanmar Narciso.

A sétima caverna”Harry Wiese – Contato: wiese@ibnet.com.br

Rosa Amarela”Francisco Fernandes de Araujo – Contato: contato@elo3digital.com.br

Acariciando esperanças”Francisco Fernandes de Araujo – Contato: contato@elo3digital.com.br

Cronos e Narciso” – Pedro J. Bondaczuk – Contato: WWW.editorabarauna.com.br

Lance Fatal” – Pedro J. Bondaczuk - Contato: WWW.editorabarauna.com.br




Obs.: Se você for amante de Literatura, gostar de escrever, estiver à procura de um espaço para mostrar seus textos e quiser participar deste espaço, encaminhe-nos suas produções (crônicas, poemas, contos, ensaios etc.). O endereço do editor do Literário é: pedrojbk@gmail.com. Twitter: @bondaczuk.As portas sempre estarão abertas para a sua participação.



Apenas meros fios


As questões são múltiplas, infinitas, complexas e nebulosas enquanto que as respostas são vagas, imprecisas, truncadas e parciais, que em verdade nada respondem, mas se limitam a especular. Ainda assim, com base em dados tão precários, contestáveis e vagos, o homem se atreve a tirar conclusões de tudo e de todos. Não se apercebe que não tem como se livrar do estigma da pequenez, efemeridade e ínfima importância que carrega do nascimento à morte.

O que hoje soa como absoluta verdade, dogma incontestável e consensual, amanhã pode não passar de risível sofisma, do qual todos venham a escarnecer. E não é o que acontece? Não ocorreu, por exemplo, em relação ao formato da Terra?

Ainda no século XV, os “doutos” entendidos de geografia e ciências afirmavam que o Planeta era plano e que ao cabo dos oceanos então conhecidos havia um abismo, habitado por gigantescos monstros, que destruiriam quem se aventurasse a chegar lá. Hoje, no entanto, nem o mais maluco dos malucos afirma uma sandice dessas, no auge de alguma crise aguda de delírio.

Querem mais? Não faz muito, há cinco séculos, se tanto (que em termos históricos, não passa de recentíssimo “ontem”), era público e notório que a Terra era o centro do universo. Que a lua, o sol, os planetas, as estrelas e galáxias giravam ao seu redor.

E ai de quem ousasse contradizer esse dogma. Era chamado às falas (na verdade, não bem isso, mas... deixa pra lá) e, caso não admitisse seu “erro” e não o abjurasse, solene e contritamente, poderia virar churrasquinho numa fogueira, para satisfazer a sanha e a sede de sangue da turba fanática e ignorante.

E hoje? Há algum imbecil, desses portadores de dois únicos neurônios e, assim mesmo, com um deles pifado, capaz de dizer tamanha sandice? Todavia, não faz muito, isso era tido e havido como o suprassumo da verdade.

Era, óbvio, fruto de conclusões prematuras, com base apenas em toscas aparências que, como todos sabem, costumam enganar (e como enganam) tanto os incautos quanto os pseudodoutos quando abrem mão da desejável cautela.

É lícita, válida, útil e necessária esta nossa insaciável sede pelo saber. Somos (e devemos ser cada vez mais) seres sumamente curiosos, em busca de soluções para o que se nos afigura como insondáveis mistérios e de explicações para o que pareça, ou de fato seja, inexplicável.

Não são as especulações, teorias e hipóteses, pois, que se tornam condenáveis e que devemos evitar. São as conclusões, quase sempre prematuras, precipitadas e baseadas, apenas, nas aparências, principalmente quando estas aparentem ser lógicas e plausíveis.

O verdadeiro espírito científico é o que tem como premissa permanente estado de dúvida. É descartar qualquer “certeza” liminar que na verdade nunca temos, mesmo que estejamos convictos de ter. Crer, baseado exclusivamente nas aparências ou em fragílimas evidências, não é fé, é mera credulidade. Fuja dos donos da verdade, dos falsos gurus e dos que se arrogam a ter “a chave do conhecimento”.

Gustave Flaubert também se mostrou pasmo com a arrogância de alguns, e com a estupidez de milhões de outros tantos. Os primeiros por, sem nenhuma base sólida e nem dados concretos e indesmentíveis, saírem por aí ditando cátedra e espalhando dogmas que só têm como conseqüência o atraso na evolução mental e espiritual do homem. E os segundos, por acreditarem em tudo o que lhes dizem, sem colocar ínfima pontinha de dúvida. Declarou, a propósito: “Estupidez consiste em querer chegar a conclusões. Nós somos um fio e queremos conhecer o pano todo”.

Deveríamos, desde crianças, ser educados nos princípios defendidos por René Descartes, ou seja, os do “dubito, ergo cogito, ergo sum” (duvido, logo penso, logo existo). No mais, tudo é questionável. A única conclusão segura a que poderemos chegar é a de que existimos, pois se temos a capacidade de duvidar, temos a de pensar. E se contamos com essa habilidade, “existimos”.

Utilizando o método do ceticismo, mas com a mente e o espírito abertos, sem assumir atitude cética (mantendo predisposição de aceitar a verdade quando ou se chegarmos a ela), chegaremos, talvez, a uma raríssima conclusão válida, com chances de ser verdadeira: “só sei que nada sei”. E sei lá alguma coisa?!!

Boa leitura!!

O Editor.



Acompanhe o Editor pelo twitter: @bondaczuk
Decifrando enigmas

* Por Pedro J. Bondaczuk

Na sucessão dramática dos dias,
das estações, das fases e dos anos,
atônito face à enigmática Esfinge,
adstrito à contundente insignificância,
ouço o repto: “Decifra-me ou o devoro!”
Clone de Perseu, decadente e velho.

Rosário infindável de indagações,
coleção, crescente, de mistérios,
multiplicam-se, abundam questões,
expande-se, veloz, a ignorância
face ao repto: “Decifra-me ou o devoro!”

Aprofundam-se as contradições,
evidenciam-se as incoerências,
ficam obscuras as metáforas,
tornam-se nebulosas as ciências
e ouço, sem cessar: “Decifra-me ou o devoro!”

Busco, em vão, as soluções,
meu tempo mingua, foge, escasseia,
surgem novas, complexíssimas questões,
a dúvida limita-me, me imobiliza
e ouço o repto: “Decifra-me ou o devoro!”

Densas sombras me obscurecem a mente...
Espesso véu de trevas me oprime.
O tempo passa, os dias pingam, escoam,
mas não consigo vislumbrar a verdade
face ao repto: “Decifra-me ou o devoro!”

Luz! Luz!, brada, desesperada,
a razão, que se sente corrompida,
imóvel, presa e manietada.
Corrente de dúvidas e indagações.
Serei devorado! Não consigo decifrar a vida!

(Poema composto em Sumaré, em 10 de outubro de 1974).




* Jornalista, radialista e escritor. Trabalhou na Rádio Educadora de Campinas (atual Bandeirantes Campinas), em 1981 e 1982. Foi editor do Diário do Povo e do Correio Popular onde, entre outras funções, foi crítico de arte. Em equipe, ganhou o Prêmio Esso de 1997, no Correio Popular. Autor dos livros “Por uma nova utopia” (ensaios políticos) e “Quadros de Natal” (contos), além de “Lance Fatal” (contos), “Cronos & Narciso” (crônicas), “Antologia” – maio de 1991 a maio de 1996. Publicações da Academia Campinense de Letras nº 49 (edição comemorativa do 40º aniversário), página 74 e “Antologia” – maio de 1996 a maio de 2001. Publicações da Academia Campinense de Letras nº 53, página 54. Blog “O Escrevinhador” – http://pedrobondaczuk.blogspot.com. Twitter:@bondaczuk
O descanso compulsório


* Por Ruth Barros


Esse feriado, mix de Nossa Senhora Aparecida e Dia das Crianças, está enlouquecendo Anabel. Não que eu tenha nada contra a padroeira e muito menos contra crianças, muito antes pelo contrário. É que novamente me vejo obrigada a achar diversão, amigos, lugar para onde ir etc. etc. além dos gastos obrigatórios que essas atividades extras acarretam. E como não bastasse mais nada, a lógica da natureza na grande São Paulo é implacável – sol durante a semana e tempo desconfortável nos dias que permitiriam parques, praias e outros programas que exigem menos esforço mental para bolá-los, são simples conseqüência do dia bonito.

Já abordei esse tema antes – mesmo porque a escriba, em que pese a fértil imaginação, se vê cada dia mais dominada pela preguiça. E é consenso entre os repórteres e pauteiros, pelo menos os sérios, de há 40 pautas no mundo, isso é estimativa generosa, senão vejamos: eleições, prédios em Nova York que são atingidos por aviões, congestionamento nas estradas e ruas, Natal, fugas de presídios, Carnaval e por aí vai, qualquer ser humano que já leu um jornal ou assistiu TV sabe do que estou falando. Como já cobri quase todos eles dezenas ou centenas de vezes durante todos esses anos, vou me ater a um velho tema de agenda – o desespero da diversão compulsória durante os feriados prolongados.

Não se discute que ficar de papo pro ar é uma das melhores coisas da vida, principalmente se esse papo pro ar não for corolário de desemprego, tédio, falta de grana, contas penduradas, o horror, o horror. Mas depois de um feriado prolongado de 7 de Setembro, do Criança/Aparecida que agora se desenrola, só de pensar no futuro Finados (e ainda tem o 15 de Novembro que vai vir no meio de uma semana, numa quarta-feira) me dá vontade de gritar. Onde vou arrumar diversão e fígado – afinal de contas, bela parte dos programas acaba em álcool – para agüentar todos esses dias?

Pior ainda são os coitados que têm filhos, não vão emendar feriados (os pais, é claro) e que são obrigados a arranjar comida, diversão e balé para os pimpolhos presos em casa. Nos dias de hoje as escolas praticamente todas aproveitam para ter esses descansos prolongados e honestamente é impossível convencer empregadas, babás e quaisquer variações no gênero que façam o mesmo, mesmo porque não é justo deixar um trabalhador – e empregada doméstica é trabalhador feito qualquer outro – acorrentado ao serviço durante um feriado. E definitivamente empregada não é função obrigatória como pronto-socorro, médico ou jornalista. Jornalista aliás também não deveria ser, mas para nosso desespero, praticamente todas as redações do mundo trabalham nos feriados, sem contar os fins de semana.

Por outro lado, trabalhar enquanto todo mundo está na praia, na cachoeira, no sítio dos amigos ou simplesmente na casa da mamãe também é problema. Se por um lado resolve a questão do que fazer nesses dias, por outro lado deixa uma sensação de fracasso “onde foi que eu errei?”, todo mundo se divertindo e só a gente na labuta, ora bolas. Pensando bem, tem mais gente na luta nesse feriado – na quinta-feira, junto com a Nossa Senhora Aparecida, recomeçou a propaganda eleitoral do segundo turno. E campanha é um massacre da serra elétrica não só para os eleitores que sofrem com ela, mas principalmente para os que nela atuam, mesmo porque nessa etapa é jogo de vida ou morte, só um sairá ungido pelas urnas. E o próximo feriado, Finados, terá realmente cara de morte para os perdedores, tanto candidatos como profissionais desempregados pela derrota.

Anabel Serranegra morre de inveja da Daniella Cicarelli, que se manda para as praias espanholas sempre que tem um tempinho

* Maria Ruth de Moraes e Barros, formada em Jornalismo pela UFMG, começou carreira em Paris, em 1983, como correspondente do Estado de Minas, enquanto estudava Literatura Francesa. De volta ao Brasil trabalhou em São Paulo na Folha, no Estado, TV Globo, TV Bandeirantes e Jornal da Tarde. Foi assessora de imprensa do Teatro Municipal e autora da coluna Diário da Perua, publicada pelo Estado de Minas e pela revista Flash, com o pseudônimo de Anabel Serranegra.




Brinquedos de criança

* Por Mário Quintana

Recordo ainda... E nada mais me importa...
Aqueles dias de uma luz tão mansa
que me deixavam, sempre, de lembrança,
algum brinquedo novo à minha porta...

Mas veio um vento de Desesperança
soprando cinzas pela noite morta!
E eu pendurei na galharia torta
todos os meus brinquedos de criança...

Estrada afora após segui...Mas, ai,
embora idade e senso eu aparente,
não vos iluda o velho que aqui vai:

eu quero os meus brinquedos novamente!
Sou um pobre menino...acreditai...
que envelheceu, um dia, de repente!...


(Livro “Antologia Poética”, Editora do Autor, 1966).


* Gaúcho de Alegrete, um dos maiores poetas brasileiros.
Os oito nomes de Picasso


* Por Rafael Alberti

Que teria sido de ti
Pablo, se entre os oito
nomes
com que foste batizado
tivesses preferido ao de
Pablo Picasso
o de Diego Picasso
ao de Diego Picasso
o de José Picasso
ao de José Picasso
o de Francisco de Paula
Picasso
ao de Francisco de Paula
Picasso
o de Juan Nepomuceno
Picasso
ao de Juan Nepomuceno
Picasso
o de Maria de los Remédios
Picasso
ao de Maria de los Remédios
Picasso
o de Crispin Picasso
ao de Crispin Picasso
o de Crispiniano da
Santíssima Trinidad Picasso?

Mas não foi assim
e só na hora de
batismo ficaram
como sete possíveis invisíveis
irmãos,
Diego,
José, Francisco de Paula,
Juan Nepomuceno,
Maria de los Remédios,
Crispin,
E Crispiniano
da Santíssima
Trinidad Picasso.

E saiu só Pablo.
sem Diego,
sem José,
sem Francisco de Paula,
sem Juan Nepomuceno,
sem Maria de los Remédios,
sem Crispin,
sem Crispiniano da
Santíssima Trinidad Picasso.
Só Pablo Picasso.



* Poeta espanhol, expoente da chamada “Geração 27”.
Meu pai


* Por João Alexandre Sartorelli


A sombra de meu pai desce
Sobre as montanhas cariocas,
Sobre a noite pulverizada por gotas frias.
Eu não me assusto
Nessa arquitetura em suspenso:
Faz um ano e nele penso.

* Analista de Sistemas por profissão e poeta por vocação